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terça-feira, 24 de agosto de 2010

Arte de superar os limites virou a melhor obra das vidas de dois artistas

Uma pintora com paralisia cerebral e um músico que não enxerga abrem hoje, no Senado Federal, uma exposição comovente.

Uma moça que nunca andou, fala com dificuldade extrema e tem comprometimento de todo o aparelho locomotor. Um homem cuja última lembrança na vida foi a de ter visto o jaleco branco do médico que o operou. Ele contava 8 anos. Está com 53. A professora de artes que um dia conheceu esse homem, depois essa moça. Uma mãe que, ao saber que a filha tinha paralisia cerebral, demorou três dias para ter coragem e perguntar à médica o que aquilo queria dizer para o resto da vida. E uma produtora cultural que viu toda essa história e escreveu um projeto. E o projeto virou arte. Juntou pintura e música. A melhor de todas.

História danada de boa essa. A moça que não anda e vive cheia de limitações é uma pintora. Das melhores. O homem que não enxerga é compositor, arranjador e instrumentista. No violão, ninguém o detém. A professora de artes que um dia conheceu ambos virou curadora. A mãe que não sabia o que fazer com aquela sentença nunca mais perguntou por que aquilo havia acontecido com sua filha. A produtora cultural é autora de um projeto de sucesso, há um ano e meio correndo estrada.

E hoje, às 15h, no Salão Branco do Senado Federal, a pintora de sorriso encantador e o tímido músico mineiro estarão juntos, inaugurando a exposição Arte superando barreiras. Kátia Santana mostrará 11 pinturas abstratas, em acrílico sobre tela. Evaldo Leoni cantará músicas de própria autoria e de compositores consagrados da Música Popular Brasileira. Enquanto Evaldo estiver cantando, Kátia pintará mais uma obra.

Ivana Andrés, 59 anos, a professora de artes, que há sete anos acreditou que essa moça poderia pintar de verdade, vai estar ao lado da aluna. Simone Senra, 41, a produtora cultural, verá seu projeto, mais uma vez, ganhando espaço e elogios rasgados do público. E Izabel Nedina, 48, cabeleireira, a mãe, certamente chorará em algum canto daquele salão do Senado Federal. E toda lágrima que derramar não terá sido em vão.

Na tarde de ontem, o Correio foi ao encontro de Kátia e Evaldo, que haviam acabado de desembarcar de Belo Horizonte (MG), onde moram. Ela, aos 29 anos, é pura alegria. A primeira vez em Brasília. Ele, aos 53, é mineirinho de tudo: fala baixo e tem no violão o melhor confidente. Ela, de cabelos pintados de loiro, com uma borboleta tatuada no ombro esquerdo e piercing discreto no nariz, diz, num esforço sobre-humano: “É com a arte que expresso a minha alegria e minha tristeza”. Ele, sentadinho, com o violão no colo, declara, com sinceridade comovente: “A música é toda minha vida”.

Izabel olha para a filha, para os quadros da artista que começavam a ser colocados na exposição e reconhece: “Ela é o meu maior orgulho. Meu maior aprendizado”. Ivana, também pintora consagrada, filha da mestra Maria Helena Andrés, admite: “Para pintar, é preciso ter coragem. E Kátia não tem medo de perder um quadro e refazê-lo, transformá-lo”. Sobre a dificuldade motora da aluna em pegar o pincel, a professora é categórica: “O olho é mais importante que a mão”. Evaldo, que não enxerga, usa as mãos ágeis para fazer mágica com as cordas do seu violão. A pintora com paralisia cerebral e o músico que nada vê se completam. E se entendem nas suas diferenças.

Renascimento
E esse encontro é tão comovente quanto a própria arte que brota das mãos de ambos. “Esse é um projeto de oportunidades. A inclusão é nossa. O preconceito é nosso. Esse foi um encontro de todos nós”, diz Simone, a produtora. O projeto Arte superando barreiras foi patrocinado pelo Ministério da Cultura, por meio da Lei Federal de Incentivo à Cultura (Rouanet). Teve também o apoio do jornal O Estado de Minas, pertencente aos Diários Associados, e de algumas empresas mineiras.

Durante um ano e meio, Kátia e Evaldo expuseram em Belo Horizonte, em Nova Lima (MG), em São Paulo, e agora chegaram a Brasília, para o encerramento do projeto que mudou a vida de ambos. “Ela ficou mais confiante, mais feliz”, percebe a mãe. Kátia escreveu, em seu computador adaptado: “Comecei a pintar há cerca de oito anos porque estava com depressão. Logo comecei a me sentir cada vez melhor e mais livre.... Penso que quando alguém desiste de sonhar desiste da vida”.

Evaldo, com o projeto, passou a apresentar semanalmente o programa A arte de superar barreiras, numa rádio comunitária de Belo Horizonte. No espaço, histórias de superação de pessoas com qualquer tipo de deficiência são abordadas. Ele canta e recita poesias — de vários autores e também dos convidados entrevistados. E nunca tocou tanto quanto agora no Voz e Poesia, grupo musical do qual faz parte.

A pintura de Kátia tem muita cor e luz. Tem magia. É alegre e convida, pelo abstrato, para uma viagem. A artista sabe exatamente quais os caminhos aonde pretende chegar. “Ela tem uma experiência autodidata. Às vezes, começa o quadro pelo meio. E, mesmo com toda limitação, é rápida. Pintou três telas grandes em menos de três horas”, exulta a professora de artes, embasbacada com sua primeira aluna tão especial.

A música de Evaldo tem cheiro das Minas Gerais. É suave, baixa e tem um quê de Clube da Esquina. O compositor é fã de carteirinha de Milton Nascimento e de toda aquela turma que se formou naquela época. Gosta do verso, da poesia dita com honestidade. E foi essa música, estudada à exaustão, que fez o menino que perdeu a visão aos 8 anos, em decorrência de um glaucoma avassalador, acreditar a que a escuridão não seria o fim. “Aconteceram tantas coisas boas na minha vida que não penso mais na cegueira”, diz o homem que se casou pela terceira vez e tem dois filhos, um deles também músico.

Acessibilidade
Sessão de fotos para a matéria. Kátia, sorrindo riso de felicidade, pergunta ao fotógrafo: “O Evaldo aparece também?”. Ela enxerga pra ele. Ele caminha pra ela. “Ela é linda, espetacular”, diz o músico. Ela ouve e ri. Ele não vê, mas sente. Ela fala, de novo fazendo um esforço danado para ser entendida: “Quando pinto, sinto que tô livre, fora da cadeira de rodas”.

E é no Senado Federal, lugar onde o país se reconhece, se espanta e de quando em vez ainda se enche de esperança, que a exposição terá seu desfecho. Mônica de Araújo Freitas, presidenta do Programa de Acessibilidade do Senado Inclusivo, elogia o trabalho da dupla.

Ela conta que a Casa, há seis anos, passou a tratar como prioridade o direito de ir e vir dos que têm limitações. “Fizemos reformas e adaptações estruturais, compramos equipamentos, temos intérprete de Libras e realizamos um censo para saber quantos funcionários são portadores de necessidades especiais. Todo ano, em dezembro, realizamos a Semana do Senado Inclusivo. Virou um sucesso, nosso compromisso.”

Kátia olha os quadros sendo colocados nos painéis. Dá palpite. Quer ver sua obra mais bonita. Sentadinho, Evaldo afina as cordas do seu instrumento. É hoje, daqui a pouco, a abertura da exposição da pintora e do músico. Pergunto a ela como está a emoção. Ela responde: “Tô muito feliz, o coração tá batendo cada vez mais forte”. Ele só quer fazer o que mais gosta: tocar, tocar e tocar. Em seu computador, Kátia escreve páginas do livro que vai lançar, Um sonho de vida: “Sou assim, livre. presa, triste, alegre, segura do que faço e firme nas decisões. Desejo aprender sempre mais e acreditar que tenho forças para continuar. Sinto a luz de Deus dentro de mim”. Não há mais o que perguntar. Deixa a música de Evaldo seguir.

Essa história é boa demais. Boa pra contar. Melhor ainda pra ver e ouvir. E sentir.

Marcelo Abreu
Correiobraziliense.com.br

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Artista plástica e arquiteta tenta provocar a percepção visual dos estudantes


Déa Garcia transforma muro de uma escola do Lago Norte em obra de arte usando a técnica trompe l'oeil, que dá a impressão de terceira dimensão.

Déa Garcia, artista que criou o painel, e, acima, sua filha Anita tentando abrir uma porta: elementos que criam ilusão de ótica promovem interação com o público Muitas pessoas costumam dizer que só acreditam em alguma coisa vendo. Mas o olhar pode levar o ser humano a assumir como concreto o que não passa de ilusão. Os artistas fazem esse jogo ilusório volta e meia. A perfeição de certas técnicas obriga o espectador a se questionar. A velha história do “parece mas não é”. Os gregos, precursores de tantas artes, começaram a brincadeira(1). Os barrocos inventaram o trompe l’oeil (em francês,“engana o olho”), método que produz imagens tão reais que criam a ilusão de óptica de que os objetos estão em três dimensões. Os renascentistas a desenvolveram à perfeição com a descoberta da perspectiva. Ontem foi a vez de os brasilienses vivenciarem uma experiência curiosa dessas. Um muro do Colégio do Sol, no Lago Norte, se tornou uma cidade pelas mãos da arquiteta e artista plástica Déa Garcia. Uma homenagem a uma arte cada vez mais rara e à diversidade da arquitetura brasileira.

O trabalho de Déa teve que ser monumental: a tela em branco era um muro de 120 metros quadrados que divide o pátio da escola e o terreno vizinho. A ideia de transformar o espaço em arte veio das diversas visitas que a artista faz ao colégio para buscar a filha, Anita, 10 anos. “A escola é cheia de arte e, no entanto, sempre achei esse lugar, tão usado pelas crianças, sem vida”, avalia. Há mais ou menos três meses, Déa sugeriu ao diretor da escola, o professor Erly Ferreira Gomes, uma intervenção artística. “Não pensei duas vezes”, afirma Erly. E aprovou.

Déa já tinha um plano na cabeça. “Achei que seria uma oportunidade de resgatar o trompe l’oeil. É uma técnica tão difícil — é feita em grandes proporções, requer andaimes, desenhos precisos — que os próprios artistas contribuíram para sua extinção”, lamenta. Primeiramente, ela concebeu um desenho europeizado sugerindo uma paisagem da Itália, país em que a técnica foi amplamente difundida durante o Renascimento. Mas, assim como é preciso olhar duas vezes para reconhecer uma ilusão, a artista repensou o motivo. “Decidi explorar a arquitetura brasileira, que, tendo sido influenciada por tantas culturas estrangeiras, se tornou única e muito rica”, explica.

Foram dois meses de trabalho constante, sempre acompanhado por observadores astutos. “Recebi muitas sugestões dos alunos. Teve um que me alertou sobre a variedade de cores: ‘Você não tem nada laranja. Não se esqueça de colocar alguma coisa laranja’”, recorda Déa.

O resultado foi a criação do mural Vila do povo brasileiro. Impossível como é representar todo o léxico arquitetônico do Brasil, prevaleceram as imagens clássicas, como o estilo do interior de Goiás, o barroco de Minas Gerais, a taipa brasileira descendente da africana, a oca, elementos do modernismo, a palafita, a azulejaria portuguesa e até os arranha-céus comuns tanto em São Paulo quanto em outras metrópoles do mundo. E todos esses exemplos, defende a artista, podem ser encontrados em Brasília. “Pessoas de todos os lugares do Brasil vieram para Brasília e guardam as referências dos lugares de onde vieram. Mesmo que você tenha nascido em Brasília, tem um parente que mora em outro estado e consegue assimilar os traços dessa arquitetura.”

Imersão
Os meninos do grupo dos quadrinhos: arte abstrata caiu no gosto de todos os alunos A principal diferença entre outras formas de pintura e o trompe l’oeil é a relação entre a obra e o público. “Você vai a um museu e contempla um quadro. Com o trompe l’oeil, não. Você não tem escolha. A interação é inevitável”, explica Déa. A técnica também foi escolhida para o local como uma provocação à percepção visual dos alunos. A artista acredita que é preciso instigar a formação gráfica das crianças — a interpretação da imagem é tão importante quanto a da escrita. Ela lembra que a sua curiosidade para a arte foi influenciada pelos desenhos do pai, que é publicitário. Dono de um arsenal de lápis de cor, tintas e outros materiais insuportavelmente atraentes à mente criativa de uma criança, ele esbravejava quando se dava conta de que a filha havia circulado pelo escritório e usado os materiais. “Mas, por mais que eu bagunçasse, ele nunca trancou a porta”, lembra Déa, risonha.

“Assim como os jogos de videogame, o mural também é uma experiência virtual”, explica. A diferença é que neste virtual há a oportunidade do toque. E as crianças tocaram. Objetos reais, como maçanetas de portas e lamparinas, foram instalados no mural, e não faltou quem tentasse abrir as portas. Queriam ver o resto da mulher que aparece atrás de uma porta entreaberta. Pressupor a necessidade de explicação aos jovens é redondo engano. São eles que ensinam os interlocutores. “A vila foi feita com um técnica que mistura pintura com o 3D. Dá pra ver que ela utilizou a perspectiva”, ensina Pedro Henrique Fernandes e Lopes, 12 anos. Murilo Vasconcelos, um ano mais novo que o colega, agrega: “Achei muito interessante, deixa o colégio mais colorido. A cultura influencia muito a vida das pessoas”.

Os dois, com os amigos Júlio Marino Figueiroa da Conceição e Patrick Boescheinstein, ambos com 11 anos, têm um grupo — ou seria uma editora? — de quadrinhos no colégio. Em poucos minutos, um adulto de penúltima geração se espanta com a versatilidade dos meninos-marchandes. “No começo parecia arte abstrata, não dava para ter muita noção de como ia ficar”, argumenta Murilo. Questionado sobre o significado de “arte abstrata”, ele não tibubeia: “É uma arte sem figuras definidas, mas que simboliza alguma coisa”. É espantador.

1 - Arte de iludir
O naturalista romano Plínio, o Velho, conta uma anedota entre Zeuxis e Parraso, pintores renomados da antiguidade helênica. Em uma disputa para eleger o melhor entre os dois, Zeuxis pintou um cacho de uvas. De tão realista, diz a história, passarinhos tentaram bicar as frutas. Passado um tempo, ele pede a Parraso que puxe as cortinas que cobriam a obra para que o rival a visse. O pedido é, na verdade, a confirmação da vitória do oponente: as cortinas haviam sido pintadas por Parraso.

Ariadne Sakkis
Correiobraziliense.com.br

quarta-feira, 12 de maio de 2010

Artista plástica sobrevive à grave doença e usa o coração como recomeço

Dar a volta por cima e recomeçar frente a situações adversas é muito legal, especialmente quando se compartilha as lições aprendidas com os outros, em forma de arte. Todos os males vêm para o bem!

Artista plástica que enfrentou uma grave e rara doença e depois disso teve a vida completamente modificada faz exposição e usa o principal órgão humano como símbolo de sua volta por cima.


Quem chega ali leva um susto. O que é aquilo? Que tantos corações pendurados são aqueles? Corações feitos usando várias técnicas: costuras. bordados, crochês. De todos os tamanhos, todas as formas. O que significa aquilo tudo? Estar ali, de cara, causa um certo estranhamento. Mas é bom que se entre. E a pergunta se faz inevitável: quem pariu aqueles corações? Sim, alguém lhes deu vida, mesmo que feitos de pano.

Na manhã de ontem, a “mãe” daqueles corações estava ali, segurando suas duas bengalas. Suas pernas emprestadas. O equilíbrio que lhe foi roubado. E ela ria, como se ri da vida e pelo fato de estar vivo. O encontro não poderia ser mais providencial. Suyan de Mattos, carioca em Brasília desde os 9 anos, é uma sobrevivente. Aos 48, descobriu que a melhor coisa é ainda existir.

Há um ano, ela morreu. E morreu sem saber que estava morrendo. Era pra ser um carnaval daqueles, em Pipa, litoral do Rio Grande Norte. Uma dor de cabeça a consumiu de tal forma que ela não conseguia mais nem pensar. Hospedada em casa de amigos médicos, eles primeiro lhe deram analgésicos. Nada. A dor só aumentava. Desconfiaram, então, de meningite. Quiseram interná-la num hospital de Natal. Ela resistiu. Teve medo. Preferiu voltar para Brasília, onde mora a família.


Do aeroporto de Brasília foi direto para um hospital particular se internar. “Fui atendida por uma médica boliviana, que me diagnosticou com sinusite e me deu remédios para aliviar a dor de cabeça. Só que a dor não passava, só piorava”, ela conta. Desesperada, Suyan resolveu deixar o hospital. “A médica fez minha mãe assinar um papel dizendo que eu estava saindo sem autorização dela. Minha mãe assinou.”

Suyan foi, então, para outro hospital, no fim da Asa Sul. “Lá, uma médica me deu um remédio na veia. A dor passou na hora. E me liberou para ir para casa.” Às 7h da manhã, porém, a dor voltou com maior intensidade. Suyan voltou para o primeiro hospital onde fora atendida assim que chegou de Natal.

“Fiquei três dias internada num ambulatório e só depois me levaram para a UTI”, lembra. E ali entrou em coma. “Um médico disse pra eu ir me preparando, porque o caso era muito grave. Eu vi o pior”, conta a advogada Adir Sant’Anna, de 71, mãe de Suyan. Um outro, tempos depois, disse: “Se viver, ela ficará com demência pro resto da vida”.

E finalmente um laudo conclusivo: a artista plástica estava com encefalomielite — uma doença autoimune, rara (ocorre em uma a cada um milhão de pessoas), que os médicos ainda não sabem se foi causada por vírus ou bactérias. O fato é que Suyan saiu daquele hospital paraplégica e surda. E com um pedaço de vida que insistia em recomeçar.

Era um duro golpe para a mulher que vivia intensamente. Formada em história pelo UniCeub, e em artes pela Universidade de Brasília, as horas não cabiam no único dia de Suyan. Depois de formada, prestou concurso para a Secretaria de Educação. Virou arte-educadora. “Mas eu vivia em crise comigo mesma. Foram cinco anos assim. Não sabia se era professora ou artista”, diz.

Partidas
Ela decidiu, então, que faria um mestrado em artes, fora do país. E partiu para a Universidade Nacional Autônoma do México. “Era pra viver dois anos ali. Fiquei cinco.” Do mestrado, ela seguiu para o doutorado em história da arte. Voltou para o Brasil. E virou professora provisória da UnB, da Secretaria de Educação e da Faculdade Dulcina. “Ela dava aula das sete da manhã às 11 horas da noite. Não parava”, conta a mãe.

Com as aulas, a artista plástica ainda participava de exposições coletivas e individuais pelo país e fora daqui. Mas a inquietação lhe era constante. “Todo artista é um voador”, confessa. E mais uma vez ela partiu. Foi para a Argentina. Em Buenos Aires fez o pós-doutorado, em artes, com bolsa do CNPq. Um ano e meio na terra de Evita. “Os argentinos, pelo menos os que conheci, são frios, eles não abraçam, não chegam perto. Senti solidão naquele lugar.”

Suyan retornou a Brasília. E foi dar aula no Iesb, na Unieuro, no UniCeub e na Foplac. Mais uma vez, a vida vira uma loucura. E mais exposições. No ano passado, no auge da sua produtividade, naquele carnaval que seria inesquecível, a vida mudaria para sempre. Sem andar, sem escutar nada, as limitações lhe causaram dependência diária. Ela se mudou da casa com jardim bonito onde morava sozinha, num condomínio do Lago Sul, para junto da mãe, no Guará I. E conta com a ajuda do pai, separado da mãe, e de dois irmãos mais novos.

Passou a viver numa cadeira de rodas. Chorou quando teve vontade. E quis recomeçar, quando se sentiu capaz para isso. Foi para o Hospital Sarah do Aparelho Locomotor. “Lá, eu aprendi a ser independente.” Conheceu gente que só movia a cabeça. Soube de histórias piores do que a sua. Riu com algumas, chorou com outras. Fez amigos pra toda a vida. “Descobri que precisava começar a fazer coisas pra deixar a minha vida feliz novamente.”

Ainda no Sarah, ela começou a criar os tais corações. “Os médicos, os enfermeiros, os pacientes, todos me perguntavam o que era aquilo. Eu dizia: ‘É arte contemporânea’. Ninguém entendia nada”, conta, às gargalhadas. E reflete: “Há um ano, tenho uma outra vida. Preferia a outra, mas é essa que tenho agora e vou ser feliz assim”, diz. Emocionada, faz uma confissão: “Tô viva. Adoro viver, mesmo sem nunca mais ter ouvido uma música”. A mãe, sem dizer uma palavra, balança a cabeça com gesto afirmativo. Adir é testemunha do renascimento da filha.

“Minhas meninas”
Com exercícios específicos, hidroginástica e acupuntura, os movimentos das pernas, aos poucos, foram voltando. Da cadeira de rodas, ela passou ao andador. Agora, com 15 kg a mais, se sustenta com ajuda de bengalas. “Chamo as duas de minhas meninas: Maria Rita e Maria Paula”, conta, com um sorriso de quem aprendeu a rir da vida e de si mesma.

Aposentada por invalidez pelo INSS e pela Secretaria de Educação, Suyan decidiu ser o que sempre foi: apenas artista. Agora, em tempo integral. Ainda sente dores na coluna, nas pernas e formigamento nos pés. Está surda, mas continua viva. Na manhã de ontem, a conversa foi intermediada pela mãe, sempre disposta a acompanhar a filha. Tão grave é a surdez que nem aparelhos resolvem o problema.

Quando se fala olhando diretamente para a artista plástica, ela consegue fazer leitura labial. Mas, ainda assim, há momentos em que o diálogo fica mais complicado. Adir, a doce mãe, entra em cena. A comunicação entre as duas é perfeita. “E olha que nossa relação não era das mais fáceis. Complicada mesmo. A Suyan sempre foi muito determinada, fez o que quis, independente”, diz a mãe. A filha reconhece e admite: “Acho que mudei, fiquei mais carinhosa com todos que me cercam, rio mais”.

Naquele espaço da Casa de Cultura da América Latina, da UnB, no Setor Comercial Sul, os corações de Suyan, feitos de panos, trapos e pura emoção, batem forte. Além deles e de toda a simbologia que representam, ela colocou um vestido e um babador (“que minha mãe pedia pra eu usar quando tava internada e precisava comer” e dois jalecos (“que eu usava no Sarah e roubei quando saí”).

Tudo virou arte nas mãos inquietas da artista que não segue rótulos. Até uma carta de um ex-namorado espanhol parou ali. “Meus ex-mortos estão todos aqui. Minhas loucuras sexuais também”, brinca, sem pudores. O nome da exposição? Vou te contar um segredo: o coração emudece. “É a realidade da minha vida, o que sou, minhas histórias, meus recortes de vida. O engraçado é que o título foi pensado há dois anos, antes de tudo acontecer”, explica. E continua: “A arte não me deu dinheiro, mas me dá êxtase, liberdade, prazer total”.

Pergunto à mulher que escolheu sempre ser perdidamente apaixonada — pelos homens e pela vida — como vão os amores. Ela responde, às risadas: “Tô sozinha. Um amigo me disse pra eu pagar um michê pelo menos para fazer o meu cateterismo (para ajudá-la no processo da urina)”.

Passa das 13h. A conversa precisa acabar. Há muito para a artista plástica fazer. Outras criações, novos trabalhos, novas ideias, mais um médico para ir... É a vida, como o coração que bomba o sangue, continuando. E ela mesma define essa vida: “É um brinde (“Nossa, que cafona!”). E continua, comovida: “É sofrimento, lágrimas, renascimento e eternidade. A gente só morre quando o coração para de bater”. Suyan sabe o que diz.

O sangue da vida
Exposição: Vou te contar um segredo: O coração emudece, na Casa de Cultura da América Latina (CAL) — Setor Comercial Sul, Quadra 4, Edifício Anápolis. De terça a sexta-feira, das 10h às 20h. Sábados, domingos e feriados, das 12h às 18h. Até o dia 23. Entrada franca.

Fonte: Correio Braziliense
Matéria de Marcelo Abreu

quarta-feira, 5 de maio de 2010

O melhor quadro de Lucio: ele mesmo


É muito legal notar que nossa sociedade, cada vez mais, percebe que pessoas com Síndrome de Down vivem e convivem normalmente, possuem sucessos e fracassos tal qual qualquer pessoa. Alguém se arrisca a dizer que consegue pintar quadros tão bonitos quanto os desse artista?

Concorrendo com mais de 50 artistas da cidade, adolescente com síndrome de Down vence todas as etapas do edital público do Superior Tribunal de Justiça e abre hoje, no Espaço Cultural da Casa, sua terceira exposição individual. São 25 obras, cheias de cor, magia e talento

Quando ele nasceu, os médicos logo disseram àquela mãe: “Seu filho tem um problema. E tudo será muito lento na vida dele. Será uma criança que vai demorar a andar, a falar e aprenderá todas as coisas, se aprender, com muita dificuldade”. Foi assim, sem metáforas, sem rodeios. A mãe chorou como choram mães em desespero. Sofreu como sofrem mães que recebem uma notícia triste do filho que acabou de nascer. O mundo desabou. Era o terceiro filho, o caçula, o que completaria a família. “Mas só chorei por dois dias”, ela diz. A mulher enxugou o pranto, guardou a dor, rasgou o prognóstico cruel e decidiu: “Se houver alguma coisa para ser feita, eu farei para salvá-lo”.

Hoje, daqui a pouquinho, esse menino que nunca aprenderia as coisas abre a terceira exposição individual de pintura de sua meteórica carreira de dois anos. Lucio Piantino é um artista. Um pintor genuíno. Deslumbrantemente talentoso. Lucio tem síndrome de Down, mas isso é um mero detalhe, apenas mais uma informação sobre esse menino que pinta quadros cheios de cor como pinta a vida. Lucio sempre emociona.

E quem mais tarde for ao Superior Tribunal de Justiça (STJ) verá 25 obras — 12 absolutamente inéditas e de vários tamanhos — do adolescente que encontrou na arte sua melhor forma de expressão. Perto de completar 15 anos, ele pinta como adulto. O primeiro quadro, rascunhou ainda aos 5. Aos 13, a primeira exposição. Agora, a certeza: a pintura que surge de suas mãos inquietas é sua melhor catarse.

Aos 51 anos, a mãe de Lucio, a artista plástica e escritora Lurdinha Danezy Piantino, só chora. “Mas de completa felicidade. É a luta diária para lutar contra o prognóstico ruim que me deram. Aceitei o diagnóstico da síndrome numa boa, mas nunca a sentença que me impuseram ao meu filho.” O pai dele, o também artista plástico Lourenço do Bem, 54, torce pelo sucesso do filho.

Hoje, Lucio fará uma grande surpresa para os convidados. Receberá todos que forem à abertura da sua exposição dançando hip-hop. Isso mesmo. Além de pintor, ele também dança. “Adoro o Chris Brown (cantor norte-americano de hip-hop). Ele é demais”, ele diz.

E quem lá estiver vai se deparar com um mundo de cores. Adepto da técnica mista — acrílico e vinílica — , Lucio passeia pelo abstrato e tem flertado bastante com o expressionismo. A pintura dele é espontânea, forte, viva. Muito viva. O mais legal disso é poder “viajar” em cada tela. Cada um interpreta como quiser.

Cioso da sua obra, ele mesmo deu nome a todos os quadros: Montanha russa, Ovo, Mais louco, Escorregador, X maluco, Arco e flecha, Sol, Tigre, Jogo da velha, O bicho vai pegar, Rap, Manobra de skate, dragão, Joana (em homenagem à irmã de 17 anos), Michael Jackson, Chris Brown... E, claro, há uma obra que ele batizou de Hip-hop. “Penso sempre na música negra, no movimento dela”, explica.

Talento premiado
Na exposição O menino que virou arte, no Espaço Cultural do STJ, Lucio deixará sua marca até o dia 26 deste mês. Para chegar ali, o pintor concorreu com outros 50 artistas da cidade. Submeteu-se às regras do edital público. Foi selecionado entre os 10 melhores que farão parte do calendário de exposição da Casa deste ano.

A comissão multidisciplinar, composta por artistas, sociólogos e psicólogos, levou em conta a obra de todos os concorrentes como um todo. “Em nenhum momento, o fato de ele ter síndrome de Down contou a favor. Não houve nenhuma condescendência por isso. Diferenças são diferenças e elas estão presentes em cada um de nós”, explica Jaime Cipriani, de 47 anos, coordenador de Memória e Cultura do STJ. “O que se levou em conta foi o talento dele, a forma como sente o mundo e a espontaneidade com que expressa isso na obra.”

Jaime, sensivelmente, enxergou a alma de Lucio pela pintura nos seus quadros. E quem for lá amanhã e nos próximos dias terá a mesma sensação. A pintura dele explode na retina, arrepia, faz sair daquele lugar onde homens usam toga e decidem destinos.

Sua arte é criança, adulta, mulher, homem. É plural. É diferente, como somos todos nós. É ele, do jeitinho dele, uma arte ora debochada, moleca, irreverente e verdadeira, tanto quanto o artista. É singular. Extasiada, Lurdinha, a mãe de profundos e ternos olhos verdes, admite: “Pinto há 25 anos. Mas nunca pintei tão bem como o Lucio. Não sei trabalhar com cor. Ele é um artista completo. Vê-lo pintar me enche de prazer”.

Romper fronteiras
Mãe pode ser passional. Quase sempre o é. Mas o reconhecimento do talento de Lucio vai além de casa. Ecoa além da boca de Lurdinha. Omar Franco, 53 anos, pintor mineiro radicado em Brasília, reconhecido nacionalmente, certa vez escreveu sobre o artista, ao conhecê-lo: “Ao ser apresentado à arte de Lucio, senti saudade de quando eu ainda era menino do interior de Minas Gerais. Achava que o mundo não ia muito além das montanhas que cercavam a cidade onde vivia. Mas, como o meu universo era vasto, infinito, não havia tinta nem papel que desse conta de tanta produção”.
E continua: “Lucio não economiza telas, tintas e espaço. Ele se apropria de grandes áreas com gestos largos... Seu mundo é abstrato, dinâmico, vibrante. O pintor e pintura se misturam... Suas telas expressionistas nos devolvem a espontaneidade e a coragem que perdemos, quando nos tornamos adultos secos e quebradiços”. E encerra: “Lucio tem uma infinidade ancestral com a linguagem visual, que dá ele uma dimensão maior da vida... A arte foi feita para que possamos ousar e romper fronteiras. Lucio sabe disso”.

Cursando a 6ª série numa escola pública e de ensino regular da Asa Norte, o artista convidou todos os colegas para a exposição. Especialmente uma amiga, por quem se tomou de paixão. Ao vê-la, o coração dispara. “Ela me disse que vem”, ele diz, rindo. “Ele está numa ansiedade danada com mais essa exposição. Nem tem dormido direito”, entrega a mãe. Coisas de artista antes de toda estreia.

Lurdinha, que é separada do pai de Lucio e assumiu e assume todas as brigas quando percebe que o filho pode ser discriminado, emociona-se mais uma vez: “Eu nunca desisti dele. Mudei-o de escola todas as vezes em que ele não foi aceito, fiz denúncia no Ministério Público, lutei pra que ele fosse feliz. E ele virou artista. Tive fé na vida. Acho que posso morrer agora. Sei que ele será capaz de continuar...”

Lucio olha seus quadros na exposição. Explica cada tela. Abraça o repórter, chama-o pelo nome. Brinca, conta histórias. E admite: “É, eu acho que sou artista”. O menino ri com verdade. De longe, Lurdinha admira o filho. Encantamento de mãe, de artista que entende artista. Os dois são cúmplices no olhar. Comunicam-se, às vezes, sem palavras. Numa das paredes do Espaço Cultural, o visitante lerá uma mensagem que Lurdinha escreveu, há dois anos.

Ela conta o começo de tudo, desde o terrível prognóstico. E a superação: “O menino cresceu cercado de amor, carinho e estimulação, muita estimulação. Para surpresa de todos, andou, falou e aprendeu. Aprendeu muito. Aos 4 anos, já sabia ler 35 palavras. Fez teatro, capoeira, hip-hop, violão, artesanato. foi garoto propaganda. E pintou, pintou muito. Virou artista”. O melhor quadro de Lucio, sempre, em qualquer exposição, será ele mesmo.

NÃO PERCA
Exposição O menino que virou arte, de Lucio Piantino. Abertura hoje, às 18h30, no Espaço Cultural do STJ — SAFS Quadra 6, Lote 1, Trecho 3 / Prédio dos Plenários, segundo andar/mezanino. Visitas até dia 26. De segunda a sexta-feira, das 9h às 19h. Contato: Lurdinha — 9297-5885.

Correiobraziliense.com.br
Marcelo Abreu
Publicação: 05/05/2010 10:33