Coisas legais acontecem o tempo todo em nosso mundo. Por que cultivar assuntos tristes, pessimistas e violentos, se há tanta coisa interessante ao nosso redor? Por que não ter acesso a informações legais, iniciativas bacanas, notícias que mostram ações construtivas?

Este espaço busca reverter o "efeito noticiário" (aquela depressão que dá ao final de um telejornal, após lermos as manchetes na internet, ou após lermos um jornal qualquer). Aqui podem ser encontrados assuntos diversos que versam sobre temas
alegres, construtivos, leves, bons e divertidos.


Você tem alguma coisa legal para compartilhar? É só enviar o conteúdo para omundoelegal@gmail.com. Todos estão convidados a participar e ajudar a reverter o "efeito noticiário".

Você vai ver como o mundo é muito legal!

Mostrando postagens com marcador superação. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador superação. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Mineiro aprendeu a ler aos 16 anos e hoje mantém programa de alfabetização


A Rodoviária do Plano Piloto foi a casa de Elias Silva. Durante uma semana, ele morou com a mãe, Maria, e seis irmãos no local que serve apenas como passagem para milhares de pessoas. Eram homens, mulheres e crianças, em um ir e vir sem fim. Assim como outras, a família de Elias não ia embora.

Mesmo com fome, mendigar não se fazia uma opção. Era 1971, ano de seca cruel em Januária, Minas Gerais, de onde vieram os Silvas. Havia apenas uma esperança de sobrevivência. Ela se chamava Brasília. Hoje, aos 44 anos, quase 40 anos depois, Elias — que se alfabetizou aos 16 — é o criador do projeto Casa de Paulo Freire, em São Sebastião.

Ensina idosos e adultos a ler e a escrever, sem cobrar nada. Mais de 2 mil pessoas saíram da escuridão da falta de conhecimento. Aprenderam a decifrar a vida por meio da escrita e da leitura com os ensinamentos de Elias.

A história do educador, porém, começou distante daqui. Em 22 de maio de 1966, à meia-noite, Elias nasceu. Veio ao mundo como filho de um marceneiro, João, com a lavradora Maria. O casal era semialfabetizado. “Sem o consentimento da minha mãe, meu pai adotou uma política: a filha mais velha cuidava dos irmãos mais novos enquanto esses não completassem a idade de trabalhar na roça, 5 anos. Nada de escola: a enxada era nosso lápis e o chão, nosso caderno”, lembrou Elias.

A vida piorou ainda mais quando o pai abandonou a família. “A seca castigou a cidade. Não tinha mais vegetação. Um dia acordei e vi minha mãe chorando. Meu pai não estava mais lá. Ficamos nós e os sacos de arroz, milho e farinha da safra passada. Minha mãe não aguentava ver os vizinhos passando fome e dividia o pouco que tínhamos com eles. Tivemos que vender nossa casa. Mas o dinheiro só deu para pagar as dívidas. O novo dono nos deu 30 dias para sair de lá”, relatou Elias, com os olhos cheios d´água.

Retirante
Maria queria tirar os filhos do pesadelo. Veio sozinha a Brasília para conseguir trabalho, mesmo sem ter onde morar. “Eu vou, mas volto logo para buscar vocês. Conforme o alimento for acabando, façam o revezamento”, ordenou a mãe. O revezamento era assim: dividiam-se os alimentos pelos dias do mês. Se a quantidade de comida durasse 20 dias, os outros 10 seriam de fome.

Para isso não acontecer, as alternativas eram: comer dia sim, dia não. Os mais velhos deviam abrir mão do alimento para os mais novos comerem. “Foram oito dias de fome. No primeiro dia, você sente uma dor terrível no estômago. Depois, essa dor triplica. Você sente calafrios, a boca seca, a vista escurece. No quarto dia, a dor vai passando lentamente. Você perde os reflexos. Começa a ver miragens. Não sente mais a língua na boca. É a morte chegando.”

A mãe só conseguiu voltar um mês depois. Encontrou os filhos quase mortos. Elias precisou ser internado. Depois, seguiram para Brasília. “Eu nunca tinha andado de ônibus, nem meus irmãos. Nunca tinha ido à cidade, nem visto um carro. Meu coração batia muito forte”, lembrou. No momento da partida rumo à capital, Elias começava a reescrever o próprio destino.

Viveu uma via-crúcis particular. “Chegamos em 23 de dezembro, à noite. A cidade iluminada pelas luzes de Natal nunca saiu de minha memória. Confesso que a claridade mais forte que eu conhecia era de lamparina. Quando vi aquela quantidade de luz, antecipei a frase de Renato Russo: ‘Meu Deus, mas que cidade linda’. Os letreiros do Conjunto Nacional me deixaram fascinado”.

Desabrigados
Mas a alegria durou pouco. “Meu irmão de 14 anos conseguiu emprego em uma fazenda. Nós poderíamos morar lá. Só por isso minha mãe buscou os filhos. Mas quando chegamos, o dono da fazenda mudou de ideia. Disse que era criança demais. Assim, fomos para a Rodoviária.” Lá, a mãe de Elias, Maria, conheceu um grupo de retirantes na mesma situação.

“Minha mãe chorava muito, eu ficava inconformado. Um dia, escondido, eu saí para pedir comida com o pessoal. Uma senhora de olhos azuis me atendeu. Fiquei nervoso, com fome, desmaiei. A mulher era médica. Me deu roupa e sapatos do filho dela para calçar. Me levou para casa. Deu emprego para minha mãe. Dona Marília mudou nossas vidas.”

Elias, aos 8 anos, começou a tomar conta do jardim da casa de dona Marília. “Um dia ela perguntou o que gostaria de ganhar como presente de Natal. Eu nem sabia o que era Natal, respondi que queria um carrinho de mão, ela achou estranho. Mas eu queria trabalhar.” Com o carrinho, Elias fazia frete na feira, melhorava o jardim e catava estrume no cerrado para fazer adubo. “Mas eu via crianças indo à escola e pensava: alguma coisa boa tem lá.”

Vitória
Somente em 1982, aos 16 anos, Elias pisou em uma escola pela primeira vez. Alfabetizou-se em um colégio público do Guará. Depois de aprender a ler e a escrever e começar um supletivo, Elias decidiu ensinar aos idosos na própria casa. “Eu queria que as pessoas experimentassem o mesmo que eu.” Um amigo soube da iniciativa e presenteou Elias com um livro de Paulo Freire, chamado Pedagogia do oprimido. “Toda a minha história estava ali. O livro mudou a minha vida. Falava algo assim: ‘O oprimido hospeda em si o opressor. A única forma de expelir isso de você é o conhecimento’”.Desde então, Elias e a esposa, Herlis, dedicam-se a levar conhecimento para idosos e adultos, em São Sebastião. As aulas ocorrem na garagem de casa, das 19h às 21h. O método é o construtivismo. “Aluno e professor devem construir alguma coisa nova. A bagagem cultural de quem estuda é levada em consideração. Ler e escrever é um detalhe, o mais importante é a mudança de consciência”, avalia. Em março, Elias concluiu o curso superior de pedagogia, graças a uma bolsa de estudos. Agora, segue rumo à pós-graduação. Ele não para, o conhecimento também não. Em breve, uma unidade da Casa de Paulo Freire será inaugurada em Ceilândia

Leilane Menezes
Correiobraziliense.com.br

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Portadora de deficiência visual leva esperança a outros com mesmo problema

A visão começou a abandonar os olhos de Nayara Magalhães dos Santos muito cedo. Era difícil decifrar o que diziam os livros escolares. A menina ampliava os textos e as figuras, tentava ir além da própria capacidade — o que se tornou um hábito —, mas a cabeça só doía. E nada de o mundo parecer mais fácil de desvendar. Apesar de ter nascido com uma doença grave, a retinose pigmentar progressiva (veja Para saber mais), a menina de cabelos e olhos claros foi criada para ser otimista. Nunca acreditou que perderia totalmente a visão.

Não aprendeu o braille, sistema de leitura por meio de pontos, quando era criança. A família, superprotetora, preferia acreditar que não seria necessário. Mas foi. Aos 18 anos, Nayara teve uma perda brusca na habilidade de enxergar. “Os médicos acreditam que a minha visão piorou depois que minha mãe adoeceu e ficou muito tempo no hospital. Pode ter sido o nervoso, o baque emocional”, explicou a jovem. “Não me preparei para isso porque meus pais acharam que o melhor para mim seria esconder esse problema. Eles não queriam aceitar a verdade, que teriam uma filha com uma deficiência em um mundo não adaptado”, completou.

Hoje, Nayara tem entre 15% e 20% da capacidade de ver, durante o dia. Ao anoitecer, cai para 10%. Mas a falta do sentido não a impede de ir longe. À época da piora, Nayara se preparava para o vestibular. Sonhava em cursar serviço social na Universidade de Brasília (UnB). “Estudei a vida toda em escola pública e todo mundo sabe que assim fica mais difícil. Eu não tinha acesso a nada que facilitasse a minha situação como deficiente visual”, afirmou.

Mesmo diante do problema, Nayara matriculou-se em um cursinho preparatório para o vestibular. Gravava todas as aulas, enquanto uma amiga ajudava e lia os textos para ela. E assim Nayara estudou mais de 10 horas por dia, durante um ano. Passou na segunda tentativa. “Escolhi o serviço social porque é o curso que mais trata de políticas sociais. O profissional dessa área defende um grupo vulnerável, as minorias. O primeiro auxílio que as pessoas procuram é o de um médico. A maioria deles trata a deficiência visual apenas com uma doença e não leva em consideração o social. A assistente atua justamente nesse setor”, justificou.

Mudança
Nayara conheceu um mundo diferente. Estava habituada a uma vida de isolamento: “Sofri muito bullying na escola. Tinha que me sentar sempre muito perto do quadro, às vezes tropeçava nas coisas, batia a cabeça. Aprendi a me afastar dos outros para me defender”. Na universidade, a jovem encontrou amigos, alunos como ela ou professores. Conheceu o Programa de Apoio aos Portadores de Necessidades Especiais (PPNE). Nele, a estudante tinha direito a três tutores. Eles eram alunos bolsistas que a ajudavam durante a aula e nas provas.

“Quando percebi que muitas pessoas acreditavam em mim, me vi capaz de qualquer coisa”, lembrou. Quase quatro anos depois de ingressar na UnB, Nayara deu início ao trabalho de conclusão de curso, a monografia. O tema não poderia ser outro: o acesso dos portadores de necessidades especiais ao nível superior. “Escolhi pesquisar porque há tão poucos deficientes nas universidades. É um problema que vem do ensino básico, passa pelo médio e leva a uma barreira no momento de ingressar na faculdade.” Nayara encontrou pouca bibliografia. Contou com a ajuda de computadores com leitores de tela.

Dificuldades
O trabalho trata das falhas na acessibilidade dentro da UnB. “Faltam calçadas adaptadas, tudo é muito longe. Sempre esquecem um orelhão no meio do caminho, um buraco no meio da rua. A cidade toda é assim e a universidade não é diferente”, apontou. Mas o foco da pesquisa de Nayara é mais polêmico que a questão da mobilidade. A monografia leva o título Sistema de cotas para deficientes, uma alternativa viável.

“Percebi que a quantidade de deficientes só diminuía na UnB. De acordo com pesquisas, 26 mil deficientes concluíram o segundo grau no último ano. A demanda pelo ensino superior existe. Só há 48 deficientes na UnB inteira. Desses, somente 15 têm algum problema como surdez ou na visão. Os outros sofrem de dislexia, etc.”, constatou. Nayara entrevistou os professores do PPNE e os alunos especiais. “Na minha hipótese, achei que não iam concordar com o sistema de cotas. Mas me surpreendi. Apenas um deles se colocou contra.”

Na conclusão, pela própria experiência de vida e pelo que viu na UnB, Nayara optou por defender a reserva de vagas no vestibular para portadores de necessidades especiais. “Seria uma política de equiparação de oportunidades. Algo paliativo e não permanente. Quando a universidade conseguisse atrair esse público, não seria mais necessário”, argumentou.

“Essa medida teria de ser articulada com uma política de mudança no sistema educacional inteiro, desde o ensino básico. Deveria também ser acompanhada de uma política de permanência dentro do ensino superior, como o oferecimento de bolsas de pesquisa especiais”, acrescentou. Ganhou nota máxima, o SS. Agora busca meios de divulgar suas ideias e contribuir efetivamente com a sociedade.

Nayara não deixa de surpreender. Este mês, assumiu o cargo de assistente social na Secretaria de Justiça. Foi a única que passou no concurso para essa atividade específica. Agora, acompanha jovens que cumprem medida de liberdade assistida. Vai, inclusive, visitar a casa deles e orientar as famílias para que os adolescentes não voltem a cometer crimes. “Para poder levar uma vida normal, é preciso aceitar-se. Depois, tentar ser independente, o máximo possível. E, principalmente, agarrar todas as oportunidades”, ensinou. Quem olha para Nayara não reconhece a limitação de imediato. Vê apenas uma jovem de traços suaves, maquiada com delicadeza, usando luzes no cabelo e unhas pintadas de rosa-claro. Na tarde de ontem, ela se exibia, esbelta, em um vestido verde, da cor da esperança.

Leilane Menezes
Correiobraziliense.com.br

Menino que ficou cego ganhou concurso de redação na escola

Prematuro, Pedro Henrique teve retinopatia e aos poucos foi perdendo a visão. Aos 12 anos, a cegueira total. Ainda assim, é um vitorioso. Ele também coleciona medalhas de natação.

Ele nasceu com 49cm e pesava 1,2kg. A mãe, que aos três meses sofreu um descolamento de placenta, teria uma gravidez de altíssimo risco. No sexto mês, começou a sangrar. E não deu mais para esperar. Uma cesariana foi feita às pressas. E nasceu o menino, que logo teve que ir para a incubadora. Ficou ali por 180 dias. Precisou de oxigênio para se manter vivo. Saiu do hospital, em Rondonópolis, no Mato Grosso.

A vida seguiu. A mãe, moça que contava 20 anos à época, criou o segundo e último filho com toda a dedicação que uma criança prematura requer. Levou-o a todas as consultas. Acompanhou cada alteração. E comemorou os pequenos progressos. Aos nove meses, em mais uma visita de rotina ao médico do posto de saúde, algo estranho aconteceu. O pediatra percebeu que o bebê tinha estrabismo.

O médico recomendou à mãe que levasse o filho a um oftalmologista. Com um ano e seis meses de vida, o menino começou a usar tampão nos dois olhos, alternando no direito e no esquerdo. A mãe fez tudo como o especialista determinou. “Um dia, coloquei um brinquedo no chão e percebi que ele não via, não pegava”, lembra a auxiliar de serviços gerais Cristiane Cruz da Silva, hoje com 36 anos.

Mais consultas médicas. O que era apenas um severo estrabismo logo recebeu outro nome. Pedro Henrique Cruz Araújo tinha retinopatia da prematuridade, alteração no crescimento da retina. Assim, cada vez enxergando menos, Pedro Henrique cresceu.

Aos seis anos, não quis mais ir à escola. Nem brincar com os amigos. Nessa idade, o menino teve sua primeira grande tristeza. “Eu só via as cores, mas não conseguia enxergar o rosto das pessoas, os detalhes. Eu passei a reconhecer pela voz”, ele lembra.

Era preciso fazer alguma coisa urgente. E só havia uma cirurgia. Onde fazer? Como fazer? Cristiane precisava chegar a Campinas (SP) com o filho. Uma verdadeira campanha de solidariedade foi realizada. “De rifa a pedágio, tudo fizemos. Foram quase dois anos de luta”, ela conta. Conseguiu arrecadar a quantia para chegar a Campinas, em busca de um especialista.

Em São Paulo, os médicos acharam melhor que Pedro Henrique fosse submetido a uma cirurgia no Instituto da Visão, em Belo Horizonte (MG). Era 2003. Quatro procedimentos cirúrgicos — dois em cada olho — foram realizados. Pedro Henrique contava 8 anos. “Eu fiquei muito feliz. Passei a ver os carros na rua”, ele conta.

A felicidade de ver a vida e as cores foi logo interrompida. “Ele sofreu uma rejeição do silicone que cola a retina no olho direito, o que provocou o descolamento total”, explica a mãe. Em seguida, houve a mesma coisa com o olho esquerdo. Ele voltou a ter apenas 10% da visão.

Mudança de vida
Veio, novamente, a tristeza. Era como se o mundo estivesse desabado. Em 2005, a mãe decidiu que em Brasília o filho teria mais chance de ser aceito. Alguém lhe disse, ainda em Rondonópolis, que aqui havia escolas preparadas para educar crianças que mal ou nada enxergavam.

A mulher que sempre limpou e cuidou de casas alheias catou o pouco que tinha e desembarcou em Brasília. Já que não poderia mais fazê-lo enxergar, pelo menos que tivesse dignidade com o que restava. “Só vim por ele”, conta. Foram morar numa colônia agrícola no Riacho Fundo, onde uma irmã dela já vivia.

Pedro Henrique logo foi matriculado numa escola pública local. “Mas os professores de lá não estão preparados para receber alunos com deficiência”, diz o garoto, hoje um adolescente de 15 anos. Os colegas, segundo a mãe, também não foram orientados para conviver com alguém que não era igual a eles. Pedro Henrique chorou pela segunda vez na vida. Na pré-adolescência, mergulhou na depressão. E na solidão.

Mais uma vez, a mãe correu para ajudar o filho. Soube que no Guará I havia uma escola inclusiva, o Centro de Ensino Fundamental 4. E que lá duas professoras da Sala de Recursos faziam um trabalho comovente sobre preconceito e discriminação. Lá nessa sala, 80 alunos com os mais diferentes tipos de necessidades convivem com outros, tidos como “normais”, isentos de “defeitos” — visíveis ou não. Todos se misturam e todos se ajudam.

Cristiane bateu à porta daquela escola. Foi atendida pela professora Idalene André, 46 anos. A mulher simplória contou o drama do seu filho. Idalene ouviu aquela mulher como poucos haviam escutado. E lhe disse que arrumaria, sim, uma vaga para o filho dela. No mesmo dia, Cristiane voltou à antiga escola. Pegou a transferência de Pedro Henrique e o matriculou no Guará I. Era 2007. Em 2008, o menino perdeu o pouco que ainda enxergava. Veio a escuridão total.

Pedro Henrique chegou aoCEF 4 do Guará 1 na 6ª série. Estimulado pelos professores do curso regular e da Sala de Recursos e ajudado pelos colegas que estavam prontos para recebê-lo, o garoto logo se desenvolveu. Participou de concursos de redação desenvolvido pela Secretaria de Educação. Levou o segundo lugar, escrevendo sobre meio ambiente.

"Queria ver o rosto da minha mãe de novo. Hoje eu enxergo usando os outros sentidos"
Pedro Henrique Cruz Araújo, estudante, 15 anos

Herói na piscina
E ainda na escola, encontrou o esporte pela frente. Apaixonou-se pela natação. E virou um recordista. Até agora, colecionou 17 medalhas. “Nove de ouro, quatro de prata e quatro de bronze. Já competi até em São Paulo”, ele conta, danado de orgulhoso. “Mudar de escola mudou a vida do meu filho. Nem acordar às 4h da manhã pra pegar o ônibus às 5h e chegar com ele aqui às 6h30 me desanima”, diz a mãe, em lágrimas.

Eliane Lopes, 41 anos, também professora da Sala de Recursos, comenta: “Ele é mais um exemplo de vida, inclusão e desafio”. E pergunta: “Afinal, quem é diferente?” Idalene emenda: “A diferença está na alma”. Pedro Henrique apenas ouve. “Hoje eu vejo de outras formas”, ele diz. A mãe ainda limpa as lágrimas que caem dos olhos.

Além das aulas regulares no CEF 4 do Guará, Pedro Henrique frequenta o Centro de Ensino Especial de Deficientes Visuais (CEEDV), na 612 Sul. Lá, ele aprendeu a escrever em braile e tem noções de orientação e mobilidade, algo de que mais precisam os cegos. É o que lhe permite, por exemplo, andar com sua bengala e tornar-se, cada dia, mais independente no mundo não feito para pessoas “imperfeitas”.

Durante a entrevista na Sala de Recursos, Sônia Guedes, 56 anos, professora de matemática de Pedro Henrique, entra. Afastada da escola por causa de um câncer de mama — ela faz as últimas sessões de radioterapia — e usando um lenço que lhe cobre a cabeça sem cabelos, a mulher que luta pela vida olha para o aluno e diz: “Ele é um exemplo de superação. Nunca se deixou vencer. Caía e levantava”. O garoto abraça a professora dos números. Ela promete: “Eu venho para a sua formatura, no fim do ano”. Ele diz que sim.

Na semana em que as escolas da rede pública chamam para a importância da inclusão, dos direitos e da valorização do aluno que não é igual à maioria, a história de Pedro Henrique soa como um bálsamo. A mãe largou tudo em Rondonópolis para que o filho fosse aceito como deveria ser. Acorda às 4h manhã. Anda meia hora para chegar ao ponto de ônibus. Às 5h, embarca. Deixa o filho na escola e vai limpar escritórios alheios. Isso de segunda a sexta. E nunca se cansa.

No meio do caminho, Pedro Henrique encontrou duas professoras que acreditaram que ele podia. O garoto venceu concurso de redação, tornou-se medalhista de natação. Quer ir cada dia mais longe, mesmo de bengalas. Pergunto do que ele tem saudade quando enxergava. “De ver o rosto da minha mãe”, responde. Mas logo se anima: “Hoje eu enxergo usando os outros sentidos”. E foi assim, descobrindo outros rumos, que ele se reinventou. E quem se reinventa acaba renascendo. Pedro Henrique nasceu quando veio a escuridão.

Marcelo Abreu
Correiobraziliense.com.br

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Menino que atirava pedras em carros vira esperança no lançamento de dardo


Antônio Carlos Maciel atirava pedras nos carros que passavam na rodovia Ayrton Senna. Até o dia em que acertou o carro da funcionária da escola em que estudava em Mogi das Cruzes e foi incentivado a trocar a perigosa brincadeira por esporte.

Deu certo. O garoto de 17 anos, primogênito da dona de casa Simone Soares, 35, mãe de mais cinco filhos --a última nasceu há uma semana-- com três pais, transformou-se em atleta do lançamento de dardo e tem marcas que impressionam pelo pouco tempo de treinamento.

Brasil tem poucos talentos no lançamento de dardo Ele está de segunda a sexta-feira no Ibirapuera sob a orientação de Fátima Germano, da ASA (Associação Sertanezina de Atletismo).

Rotina iniciada em fevereiro. Mas que lhe rendeu a marca de 60,25 m com o dardo de 700 g, utilizado na categoria menor (até 17 anos) e 100 g a menos do que o adulto. É o segundo do país nesta idade.

A força já tinha sido percebida em 2003, no dia em que acertou um Corsa na Ayrton Senna sem saber que era de alguém que o conhecia. Em vez de castigo, teve que ouvir um longo sermão das professoras sobre os perigos de atirar pedras nos carros.

Foi a professora Luciene Rocha, que trabalhava com crianças carentes da região no Projeto Fênix, em Mogi das Cruzes, quem indicou Antônio Carlos ao atletismo.

O teste de aptidão foi do jeito que ele gosta: arremessando bolas de tênis em um campo de futebol e correndo. Era basicamente o que ele fazia à margem da rodovia, jogar pedras nos veículos e fugir em disparada para não ser pego pela polícia. Era sua diversão dos 10 aos 13 anos. "Não sabia que era perigoso. Quando comecei a praticar esporte na escola, entendi que não era legal jogar pedras e eu também nem tinha energias para fazer isso depois dos treinos", contou.

Por três anos, Antônio Carlos permaneceu com a professora Luciene participando de festivais de atletismo.

Competir era uma brincadeira. Ele nem sequer tinha cadastro na FPA (Federação Paulista de Atletismo). Lançava dardos a módicos 43 m, participava de provas de 75 m, e ajudava Lucilene nos treinamentos com os alunos do projeto social Fênix.

Esporte passou na ser coisa séria quando ele passou no teste do Centro de Excelência da FPA em novembro e começou a treinar com Fátima três meses mais tarde.

Mudou de endereço. Deixou o barraco da mãe, à margem da Ayrton Senna, e foi para o alojamento no Complexo Constâncio Vaz Guimarães, na zona sul de São Paulo. Passou a ganhar R$ 150 de ajuda de custo da equipe a que se filiou, a ASA.

Após três semanas de treinos, participou da primeira competição --um torneio de lançamentos da FPA. Alcançou 50 m com facilidade.

Competiu em mais seis campeonatos. Um deles em Uberlândia, no Sul-Americano de atletismo, que dava uma vaga ao campeão nos Jogos Olímpicos da Juventude, em Cingapura, neste mês.

Não deu para fazer frente ao argentino Braian Toledo, 17, que há cinco disputa provas no dardo. Recordista mundial da faixa etária, colocou 30 m de diferença ao lançamento de Antônio Carlos, que terminou em terceiro.

DANIEL BRITO
Folha.com.br

terça-feira, 3 de agosto de 2010

Adolescente é parte de história que faz crer no futuro da humanidade


Há 48 dias, o Correio contou o drama de Lucas, um adolescente de Planaltina que vive com apenas um terço do pulmão direito. Brasília e torcedores do Palmeiras se mobilizaram numa verdadeira corrente de solidariedade. A casa simples onde ele mora virou só esperança.

Sabe essas histórias que ainda fazem acreditar que a humanidade é boa? Esta é uma delas. Como um tsunami, essa gente invadiu uma casa ainda com mofo, piso de cimento cru e pouca luz. Bateu, entrou e transformou. Iluminou todos os espaços, retirou o mofo, levou piso bonito, começou a pintar e fez aquele menino sobrevivente ter a certeza que nem tudo está perdido. A mãe do menino chora de alegria. Belisca-se. Vive um sonho. O menino, embasbacado e de olhos acesos, repete: “Eu sabia que alguma coisa boa ia acontecer”.

E aconteceu. Mas, afinal, que história é essa? Voltemos 48 dias no tempo. No sábado, 12 de junho, o Correio contou a luta de Lucas Neres Pereira, 13 anos, para sobreviver. E a luta que travara, desde que nasceu, para ser mais forte que as previsões médicas. Portador de uma grave enfermidade pulmonar, a bronquiolite obliterante (doença respiratória causada por um vírus que destrói o pulmão e pode afetar outros órgãos, como o coração).

Lucas nasceu no Hospital Regional de Planaltina (HRP). Com um mês de vida, os primeiros sinais da grave doença: muito cansaço para respirar. Numa ida de emergência ao HRP, um médico plantonista pediu um raios X. E foi incapaz de ver que metade do pulmão do bebê estava comprometido. Indicou nebulização. Era, segundo aquele homem e jaleco branco, apenas um resfriado.

No dia seguinte, o cansaço aumentou. Irani Neres Santana, então com 22 anos, a mãe, desesperou-se. Com os filhos nos braços, embarcou para a Rodoviária do Plano Piloto. Chorava e pedia para ele não morrer. Ao desembarcar ali, um carro da Polícia Militar levou mãe e filho para o Hmib. O médico de plantão, o intensivista neonatal Carlos Zacconeta, estava de saída.

Ainda assim, voltou para atender aquela criança que morria. Sorte que nem toda gente de jaleco branco é igual. Um raios X às pressas revelou: Lucas tinha uma lesão severa em dois terços do pulmão esquerdo. Ficou ali por 80 dias, na UTI neonatal. E, nesse período, momentos vários de incerteza, dor e angústia. Houve dias em que até os médicos achavam que chegara ao fim. Irani chorava agarrada aos santos de devoção.

Como milagre, o menino valente surpreendia. Mas seu estado ainda era grave. Do Hmib, foi transferido para o Hospital de Base (HBDF). Lá, ficou aos cuidados da pneumologista Rita Heloísa Mendes, que cuidou de Lucas com dedicação comovente. Nunca escondeu qualquer informação — nem nos momentos delicados.

Com 13 meses de vida, a primeira cirurgia, para retirar parte do pulmão esquerdo. Era só o começo. Aos 7 anos, a segunda e a mais radical: retirada total do órgão. Meses de internação, recaídas, lágrimas e oração da mãe. Idas e vindas ao hospital. Preocupação com o pulmão direito, que já apresenta sinais de falência — dois terços já estão lesados.

Corrente solidária
Há 48 dias, portanto, esta história foi contada. Lucas e a mãe moravam numa casa humilde em Arapoanga, bairro de Planaltina. O banheiro, cheio de mofo, era o pior inimigo para a saúde do menino. Na casa, humilde, faltava muita coisa. E a luta pela sobrevivência, a dificuldade em comprar remédios e o aparelho de que precisava com urgência, o oxímetro, que mede a saturação de oxigênio no sangue.

A reportagem comoveu Brasília. O telefone de Irani começou a tocar logo nas primeiras horas daquela manhã de sábado. “Toca até hoje”, agradece a mãe. Gente que não quis se identificar. Mas ajudou. Gente que foi lá, ligou, visitou. Conferiu a história de perto.

A ajuda chegou como milagre. E de todos os lugares. Uma atrás da outra. Veio o oxímetro, que custa R$ 1,6 mil. E uma história que arrancou mais lágrimas de Irani. O aparelho, novinho em folha, foi doação de uma mãe que perdera o filho. O menino também se chamava Lucas. “Mas eu não vou morrer, não”, decreta Lucas, o valente.

Chegou também uma bala de oxigênio portátil, no valor de R$ 600, que lhe dará liberdade até para viajar. Cestas básicas, leite da dieta especial e dinheiro em conta. “Paguei tudo o que devia na farmácia”, diz Irani. E não parou por aí. Dois irmãos, comerciantes de Taguatinga, assumiram a reforma do banheiro cheio de mofo. Um major da PM deu as tintas.

E, no dia seguinte à publicação da reportagem, no domingo 13, uma turma do barulho — gente de todos os cantos do DF, homens, mulheres e até crianças — invadiu a casa do menino. Ele não sabia. Chegaram entoando o hino de guerra. O menino engasgou.

A Mancha Verde de Brasília, torcida organizada do Palmeiras, levou solidariedade e esperança para Lucas. Assumiu a reforma total da cozinha, da área externa e do novo quarto do garoto — com direito até a faixa do time na parede. Levaram também cestas básicas e uniforme completo do Verdão.

Como a torcida chegou ali? Na matéria de 12 de junho, numa única frase perdida no meio do texto, informou-se que o menino era torcedor do Palmeiras. Não havia outra menção. Foi o suficiente para tamanha mobilização. “Meu pai, palmeirense como eu, me acordou no sábado e disse: ‘Leia essa matéria. Precisamos fazer alguma coisa. Ele é palmeirense...’ Eu tava dormindo, nem escutei direito”, conta o assistente administrativo Bruno Liporoni, de 32 anos.

Ao acordar, Bruno leu o jornal. “O leite até esfriou na xícara. Liguei pra três amigos da Mancha Verde e decidimos que iríamos fazer alguma coisa.” E-mails foram disparados. No dia seguinte, Bruno e seu exército verde estavam lá, naquele lugar muito distante de onde todos vivem. Seguiu-se uma corrida para fazer o bem. “Percebi que quem recebe ajuda ganha menos do que aquele que pode ajudar. Fomos nós quem ganhamos”, emociona-se o rapaz.

Quarenta e oito dias se passaram. Visitas de integrantes da torcida, para acompanhar a obra (feita pelo tio de Lucas, o pizzaiolo Hidevá Neres, 30, que nas horas vagas se torna pedreiro) tornaram-se constantes. Na manhã de ontem, lá estava parte deles. Vieram até dois torcedores de Cuiabá (MT), para conhecer Lucas.

O menino que desafiou a medicina — muitos pacientes morrem antes dos 2 anos de vida — comoveu a torcida mais uma vez. “Essa é uma corrente do amor. Só quero agradecer a todos que me ajudaram”, disse, com sorriso de vida. Evângelo Franco, 45 anos, diretor do Centro de Ensino Especial 2 de Brasília e diretor de imprensa e mobilização da Mancha Verde, ouviu o que aquele menino disse.

Tentando esconder a emoção, ele admitiu: “A gente tinha obrigação de fazer isso. E que possa servir de exemplo para outros torcedores, outras ONGs. A filha de Franco, a adolescente Ana Luíza, 12, acompanhou o pai. Ao se deparar com realidade tão diferente da sua, refletiu: “Se todos fizessem um pouco, o mundo estaria melhor”. Ricardo Leal, 23, estudante de serviço social, resumiu: “É uma atitude cidadã”.

E o povo cantou. Bradou. Carregou-o. Marcou um superchurrasco na casa nova dele, assim que a pintura externa ficar pronta. Ele sorriu como se fosse a pessoa mais feliz do mundo. E é. Quem vive de forma surpreendente com apenas um quarto do pulmão direito (o transplante não lhe é indicado em função da anatomia do tórax) e obrigou uma gente de jaleco branco a rever tudo que pensava saber tem direito à felicidade.

Ele sabe disso. Tanto sabe, que faz planos. “O meu sonho é conhecer o Marcão (goleiro do Palmeiras).” Alguém duvida de que ele vai conseguir? A vida é engraçada. Um detalhe, perdido no meio de um texto, pode mudar a vida de alguém com a mesma velocidade de um gol. Daqueles que arrebentam a rede. Foi um golaço!
Marcelo Abreu
Correiobraziliense.com.br

segunda-feira, 26 de julho de 2010

Campeã mundial juvenil começou no atletismo por curiosidade e com improviso


Um campo de futebol de areia, uns equipamentos improvisados, um professor de educação física de escola municipal e a chance de frequentar o principal clube da cidade.

Essa combinação levou a menina Geisa Arcanjo para o atletismo aos 13 anos. Nesta terça-feira, cinco anos depois de fazer seus primeiros lançamentos, a atleta de São Roque [cidade a 60km da capital paulista] ganhou a medalha de ouro no Mundial Juvenil de atletismo, em Moncton, no Canadá, e quebrou um jejum de 16 anos em que o Brasil não subia no lugar mais alto do pódio na principal competição sub-19 do planeta.

Os primeiros passos, saltos e lançamentos foram improvisados. Ainda hoje, os treinamentos dos companheiros de Geisa são feitos com bambu no salto com vara ou um circulo desenhado com o pé para demarcar a área de arremesso no campinho de futebol de areia. O esforço foi recompensado.

"Todo ano vou às escolas municipais convidar alunos para treinar atletismo no Grêmio [clube de São Roque]. A Geisa foi uma dessas, mas não tinha marcas expressivas em nenhuma prova", conta o professor de Educação Física Luciano da Silva, descobridor da campeã mundial juvenil.

Depois de um ano treinando, ela foi convidada para fazer heptatlo. "Mas não deixei. Com 15 anos, ela começou a mostrar potencial. E gostava muito de treinar. Foi quando eu comecei a projetar que ela podia estar na Olimpíada de 2012, 2016", conta, com ar profético, Luciano da Silva.

Geisa passou a treinar no Projeto Futuro, bancada pelo Governo do Estado, na capital paulista. Neste ano, a convite da Confederação Brasileira de Atletismo (CBAt), foi para Uberlândia (MG), treinar com um técnico cubano. Mas, segundo sua mãe, deve voltar para São Paulo após a conquista internacional.

"Ela vai retomar a faculdade em agosto. Trancou para morar em Uberlândia, mas quer voltar, terminar a faculdade de Direito [na FMU] para lutar e ajudar os atletas", conta a mãe, Mara.

Segundo familiares, a disciplina da Geisa é tão grande no atletismo quanto fora dele. A "grandona" é boa filha, boa sobrinha, boa irmã, boa aluna, boa atleta. "Ela nunca me deu trabalho. É 'molecona', desde cedo praticou esportes, gostava de andar de bicicleta, pular, fez ginástica, caratê, natação. Mas nunca deu trabalho", lembra a mãe.

A mesma opinião do irmão Jones, 22, que destaca outra característica da irmã caçula.

"Ela foi para o atletismo por curiosidade. Mas ela é muito dedicada, por isso ficou forte assim (risos). Meu pai tem estatura baixa, nós, não. E ela tem o braço maior, mais forte e é mais alta do que eu. E olha que trabalho em indústria [é operador de produção da Companhia Brasileira de Alumínio]. Só sei que depois que ela começou no atletismo a gente nunca mais brigou", brinca Jones.

Essa força fez Geisa arremessar o peso a 17m02 no Mundial Juvenil, o que garantiu a medalha de ouro. No ano, ela já lançou a 17m11 [a segunda melhor marca do mundo entre as juvenis e a melhor entre as brasileiras, inclusive adultas].

O recorde mundial é de 22m63, conquistado em 1962 pela soviética Natalya Lisovskaya. Já a melhor marca sul-americana é da brasielria Elisângela Adriano, com 19m30 em 2001. Resultados tão distantes do de Geisa quanto a data em que foram alcançados.

Como fez seu primeiro técnico no atletismo, o melhor a fazer com Geisa é acreditar em seu futuro, seja para Londres-2012 ou Rio-2016. Hoje, em São Roque, foi dia de festa e orgulho.

MARCEL MERGUIZO
Folha.com.br

quarta-feira, 21 de julho de 2010

A bela história de Wanderley


Era uma tarde comum, 21 anos atrás, durante o dia de trabalho em um salão da Asa Norte, quando o cabeleireiro carioca Wanderley Estrella, 47, sentiu as dores que eram o anúncio de uma mudança radical em sua vida. A cada minuto, as pontadas na barriga ficavam mais fortes, o suor escorreu frio e o enjoo veio logo em seguida. Uma semana depois, a fisionomia de Wanderley havia se transformado. O homem alto, atraente e saudável parecia ter desaparecido. Tinha perdido 20kg.

O tormento não acabava. Um colega de trabalho aconselhou-o a fazer o teste de HIV. “Aqueles sintomas não eram normais. Fui ao laboratório com a certeza de que daria positivo”, lembrou Wanderley. A intuição estava correta. Ao receber o resultado, ele sentiu como se o chão tivesse desaparecido debaixo de seus pés. A vida se mostrou poderosa, inesperada, dona de si. Um momento que aconteceu em algum dia dos 10 anos anteriores à descoberta do “positivo” deixou marcas eternas em Wanderley. “Eu fui contaminado entre os anos 1978 e 1980. Eu era jovem, na noite do Rio de Janeiro. Naquela época, o sexo era livre. Nem se falava em camisinha. Foi na mesma época do Cazuza”, lembrou.

À época do diagnóstico, Wanderley já estava em Brasília, lugar para onde se mudou em 1984. Veio para passar três dias e acabou fixando residência. Apaixonou-se pela cidade-parque. Tudo era glamour antes do tal “positivo.” Acostumado a cuidar das cabeças mais exigentes de Brasília e a frequentar locais de classe A, ele se viu diante de um monstro: o preconceito. Achou que ia perder o emprego, que a vida acabaria ali. “Naquele tempo, quando você recebia um resultado positivo, era o mesmo que comprar um caixão”, disse. Mas o chefe foi sensato, apoiou o funcionário dedicado. “Ele me disse: ‘Agora você só tem uma opção, e é continuar a vida, tomar o coquetel e trabalhar’”.

Abandono
Os amigos, porém, desapareceram. Não queriam apertar a mão de Wanderley, beijá-lo, dividir um copo. Compartilhar o mesmo talher ou banheiro? Nem pensar. A ignorância sobre as formas de contágio do vírus afastaram até as pessoas mais próximas. “Parecia que um buraco enorme tinha sido aberto ao meu redor. A rejeição não precisa ser expressa em palavras, a gente sente no olhar das pessoas.” O cabeleireiro, acostumado a ser querido, não resistiu a tanta hostilidade. Entregou-se ao alcoolismo. Vendeu carro e casa conquistados com muito esforço para mergulhar na bebida. “Era minha única fuga.”

Wanderley aprendeu, ainda menino, a se virar e a superar desaforos. Saiu de casa pré-adolescente. Não se sentia aceito, não pertencia à própria família. Enfrentou o primeiro preconceito, aquele contra homossexuais. “A minha orientação sexual era considerada uma doença entre os meus familiares. Saí sozinho no mundo e fui trabalhar em um salão de elite do Rio de Janeiro. Rapidinho eu estava aparecendo nos jornais cariocas e começou a aparecer parente querendo me ver. Mas era tarde.” Com as dificuldades, Wanderley aprendeu a renascer.

Força
Depois da crise, não demorou muito e ele se reergueu, parou de beber. “Encontrei força em Deus. Ele me fazia pensar: se eu posso viver uma vida normal, porque vou desistir? Tenho todo direito de ser feliz”, lembrou. Quando decidiu voltar a trabalhar, em 2002, Wanderley encontrou espaço no Salão Hélio Diffusion, um dos mais badalados de Brasília. Não escondeu de ninguém que era portador de HIV. Decidiu que o preconceito não iria vencê-lo ou abafar sua autoestima.

Para compor um novo Wanderley, ele adotou um visual peculiar. Está sempre de cavanhaque e lenço na cabeça. O acessório é multifuncional, esconde a calvície e dá um charme ao mesmo tempo. “Escolhi levar a vida de cabeça erguida.” A relação com as clientes nunca foi prejudicada pela doença. Ele atende mais de 45 homens e mulheres por dia em busca do corte ou tintura perfeita para os cabelos. “As clientes me perguntam se eu já tomei o coquetel, se está na hora do remédio”, conta. Com os avanços da medicina, Wanderley, que antes tomava 23 remédios por dia e sofria com os efeitos colaterais, começou a ingerir nove comprimidos diariamente. Há dois anos, seus exames resultam em carga viral indetectível. “Eu chamo o momento de tomar o remédio de dar ração aos meus bichinhos. Depois é hora da ração da bichona aqui. Bom humor é essencial”, disse, em meio a gargalhadas. Mas isso não bastava. O cabeleireiro queria alertar a todos sobre os riscos do sexo sem segurança. Quem ele atende no salão e recebe até preservativos de presente. “Tem algumas pessoas que falam: ‘Eu não preciso disso’. E eu digo: ‘OK. Então você vai se dar mal como eu me dei’. E elas mudam de ideia”, disse.

Luta
Em 2007, Wanderley precisou ser internado. “Fiquei cinco meses na Fraternidade Assistencial Lucas Evangelista (Fale). A maior universidade da minha vida foi ouvir as outras pessoas que estavam internadas lá, conheci várias realidades. Levantei de lá disposto a pedir meu emprego de volta”, relatou. O patrão recebeu Wanderley de braços abertos e ainda ofereceu a ele um cantinho para morar. “Eu só tinha uma sacola de roupa, quando voltei.” Naquele momento, Wanderley sentiu que podia contar com a vida outra vez. Ficou agradecido. Todo mês, ele e outros colegas de trabalho vão à Fale para oferecer cuidados de beleza aos pacientes. No próximo domingo, o ex-paciente estará lá.

O ativismo de Wanderley é contagiante. O dono do salão onde ele atua já fazia trabalhos sociais antes de conhecê-lo, mas depois de ver de perto a rotina de um portador de HIV se engajou ainda mais na luta contra a doença e apoia projetos ligados ao tema. Além da distribuição de camisinhas no salão, há até cartões-postais com o tema anti-HIV. Os profissionais do Hélio também participam de iniciativas da organização Cabeleireiros contra Aids, um projeto da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Cultura e a Ciência (Unesco).

Hoje, três anos depois, Wanderley conseguiu se reinventar. “Um portador de HIV só precisa de quatro coisas para viver bem: tomar a medicação sempre na hora certa, se alimentar bem, sexo seguro e não usar nunca palavras negativas”, afirmou. Wanderley, em breve, vai realizar um dos seus sonhos: está acabando de construir uma “mansão”, como ele mesmo diz. Cheia de pássaros e verde. “A gente é como uma nascente de água pura. Tem um curso a seguir. Quando surge algum obstáculo, como as rochas, por exemplo, a nascente faz uma cachoeira. O ser humano também pode ser assim e se superar sempre”, ensina. Wanderley não se cansa de comemorar o fato de estar no mundo. “Quando eu completar 50 anos, quero fazer uma megafesta na minha casa nova. Vai ser à moda carioca, com muita feijoada. Uma celebração da vida”, concluiu.

Leilane Menezes
Correiobraziliense.com.br

terça-feira, 8 de junho de 2010

O perigo da história única

Acompanhem no vídeo a seguir a interessantíssima história de Chimamanda Adichie, uma escritoria nigeriana que nos alerta sobre o perigo de escutarmos e acreditarmos em apenas uma versão das coisas que chegam até nós.

Muito legal a história que ela conta, as coisas que ela passou, que a fizeram refletir sobre a situação da África e do mundo, em geral.

Esse vídeo está em inglês, mas não é de difícil compreesão. Quem puder, não pode deixar de ver. Excelente exemplo a ser seguido.


segunda-feira, 7 de junho de 2010

Sem braços e sem pernas, mas gosta de futebol

Apesar de ser parte de uma peça comercial, o exemplo dessa pessoa é muito legal para todos nós!

O australiano Nick Vujicic, famoso por sua história de superação, é o protagonista de uma propaganda de uma companhia sul-coreana de automóveis. No vídeo, o homem sem pernas e braços joga futebol e faz atividades do cotidiano.

"Eu adoro tanto futebol! E eu não jogo tão bem quanto os outros, claro!", diz no início da peça publicitária.

"Na Copa do Mundo, a maioria das torcidas vai experenciar a perda de seus times. Mas, será perder igual a falhar?", questiona em outro trecho. Depois conclui: "O momento em que eu desisto é o momento em que eu fracasso. O fracasso não é importante. Como você o supera é que é".

Nick sofre de focomelia e nasceu sem os membros inferiores e superiores. Atualmente, ele ministra palestras sobre superação em todo o mundo.

Acesse o vídeo da campanha:

http://www.youtube.com/watch?v=0DcqPzO26os&feature=player_embedded#!

Folha.com.br

terça-feira, 1 de junho de 2010

Após tratamento, Fernanda Fontenele, tetraplégica há seis anos, já consegue ficar em pé

Algo só é impossível até que alguém duvide e acabe provocando o contrário. (Albert Einstein)

Seria apenas uma tentativa, mas em nenhum momento ela hesitou. Ninguém disse que conseguiria. Ela acreditou. Oito meses depois da partida, ela está de volta. Uma gente conhecida e desconhecida ajudou. O apartamento onde mora no Sudoeste se encheu de balões e cartazes, desejando boas-vindas. A caminhada será longa. Ela continua sabendo disso. Mas já deu o primeiro passo — que é achar que pode. Conseguiu ficar em pé, com firmeza. Sentiu a força dos joelhos e da coluna ereta. E, como criança que engatinha, redescobriu o prazer de ser mais independente.

Há oito meses, Fernanda não conseguia fazer nada disso. Muito menos banhar-se . O pai, hoje, comemora a nova aquisição da casa. “Saímos para comprar as barras de apoio para colocar no banheiro. Ela agora poderá tomar banho sozinha, em pé”. A mãe, cheia de emoção, repete: “Eu nunca perdi a esperança, sempre acreditei que daria certo”. A moça protagonista desta história, de olhos verdes que falam sozinhos, diz, com verdade impressionante: “A minha fé em Deus e em mim mesma me moveu até aqui”.

Em 12 de maio do ano passado, o Correio contou, com exclusividade, a história da jornalista Fernanda Fontenele e de sua luta para chegar aos Estados Unidos. Ela queria se submeter a um tratamento em San Diego, na Califórnia, que lhe daria mais independência nos movimentos. Aos 17 anos, Fernanda ficara tetraplégica, depois de um acidente de carro, ao voltar de um churrasco com o namorado, um rapaz de 19 anos que apenas sofreu uma batida na cabeça.

A lesão foi na altura das vértebras C6 e C7. Ela se submeteu a uma cirurgia de urgência, no Hospital Santa Luzia (correria o risco de parar de respirar). Três dias depois, a segunda intervenção. Saiu dali com quatro pinos para segurar as vértebras estraçalhadas. Depois, conseguiu uma vaga no Hospital Sarah do Aparelho Locomotor, na Asa Sul. “Foi ali que a ficha caiu e entendi o que era ficar tetraplégica. O Sarah foi fundamental pra eu entender toda a minha lesão medular”, ela diz.

Começou o rigoroso tratamento de reabilitação. Fernanda mudou-se para a unidade Lago Norte do Hospital Sarah. Lá, a mãe parou de trabalhar e dedicou-se integralmente aos cuidados da filha, que precisava de ajuda para tudo. “Um dia, senti um peso na perna”, conta. Dois meses depois, os braços voltaram a dar sinais de vida. Em 90 dias, começou a sentar-se, numa cadeira especial, presa a um cinto de segurança. O começo de uma nova vida.

Era hora de voltar para casa. E recomeçar a vida, em cadeira de rodas. Determinada, fez faculdade de jornalismo. A mãe, Maria Aparecida Fontenele, 56 anos, levava-a todos os dias para a aula. Empurrando a cadeira de rodas, a moça se formou. E cinco longos anos se passaram. Um dia alguém lhe falou sobre um tal Project Walk, técnica baseada num tratamento de fisioterapia que tem como meta a repetição dos movimentos e o otimismo.

Campanha
Fernanda entrou no site do projeto, procurou mais detalhes, perguntou a fisioterapeutas daqui. E decidiu que tentaria. Mas como? A viagem, que demandaria seis meses, iria custar U$ 55 mil (cerca de R$ 112 mil). Era muito. Dinheiro não havia. Foi quando uma amiga teve uma grande ideia. Faria um vídeo, contando a história e a luta da jornalista, e o colocaria na internet. Assim foi feito.

O vídeo parou no YouTube. Com duração de quatro minutos, a história comoveu internautas de todos os lugares do país. O Correio contou o drama de Fernanda na primeira semana em que o filme foi postado. A ajuda veio a galope. “A matéria deu credibilidade à nossa causa. As pessoas viram que era verdade e passaram a ajudar”, agradece o pai, o aposentado Francisco Xavier Fontenele, 55 anos.

Fernanda criou um blog para contar as novidades da sua partida. Festas para arrecadar fundos, festival de tortas, camisetas, peças de teatro com bilheteria doada para a causa, valeu tudo. Cada depósito era um dia a menos de espera. “Teve gente que depositou R$ 5 mil. E gente que colocou centavos. Isso foi o que mais me comoveu”, conta. Três meses depois, a quantia estava arrecadada. Em setembro, Fernanda partiu para os Estados Unidos, com a mãe. Em vez de apenas seis meses, elas ficaram oito. O pai juntou todas as economias para que a filha permanecesse por lá durante mais 60 dias. Valeu a pena.

Sábado, depois de 11 horas de voo, a jornalista chegou a Brasília. Na bagagem, a fé renovada. E a casa cheia de balões. Não, Fernanda não voltou andando. Nem correndo. Nem dando cambalhotas. Desembarcou conduzindo a sua própria cadeira de rodas. Está mais confiante. Fica em pé, sente firmeza no joelho direito e treina a mesma habilidade com o esquerdo. “Lá, aprendi a entender os movimentos do meu corpo”, diz.

E detalha o tratamento: “Eram três horas de atividades diárias. Só folgava às quartas-feiras e nos fins de semana. Eram exercícios em aparelhos, com adaptações também de ioga e pilates. Ganhei mais equilíbrio de tronco, o que é essencial pra ficar em pé”.

Casamento
San Diego não fez bem apenas às pernas e aos braços de Fernanda. O coração também foi acertado. Lá, ela encontrou um rapaz de 22 anos de São Paulo, que, depois de um acidente de carro, ficou tetraplégico, como ela. Felipe Costa conheceu Fernanda ainda pela internet, com o vídeo que contava sua história. Trocaram e-mails, mensagens no Orkut e se encontraram nos Estados Unidos, onde ele procurou tratamento e já começa a se locomover com a ajuda de um andador.

Havia três meses, ele já estava lá, à espera dela. A paixão foi imediata. E o namoro, mais forte do que imaginavam. Apaixonaram-se. Em julho, Felipe virá a Brasília, para o noivado. As famílias se conheceram. E os dois seguem para São Paulo, onde abrirão uma franquia do Project Walk e ali viverão. Diante das novas perspectivas de vida, Fernanda é só emoção: “Eu tive uma oportunidade. Agora, tentarei ajudar outras pessoas, gente que me escreve querendo uma chance de tentar como eu tive. Nunca vou parar de agradecer a todas as pessoas que me permitiram chegar aos Estados Unidos”.

Mais magra, com cabelos mais curtos e uma tatuagem no pulso esquerdo que representa o sol da Califórnia, Fernanda celebrou o amor por Felipe. Hoje, ambos em cadeiras de rodas, sentindo o prazer de engatinhar como crianças, sonham somar forças. Determinada, Fernanda aposta: “Não sei quando, não sei como, mas um dia vou andar. O tempo é de Deus, mas um dia andarei”. E reflete: “Se minhas mãos e meus dedos, que eram mortos, voltaram, por que não as pernas?” Esta é a história de uma moça de 23 anos que reaprendeu a viver. E assim se reinventou . Da forma que pôde.

Marcelo Abreu
Correiobraziliense.com.br

quinta-feira, 27 de maio de 2010

Reconstrução da vida


Muito legal essa história de superação e força de vontade!

Durante um banho, em 1989, Maria Lucília da Silva identificou pequenos caroços nas mamas. Como não havia sentido qualquer tipo de alteração no corpo até então, a cabeleireira pensou que poderia ser um coágulo de leite. Com o passar do tempo, surgiu a preocupação. A insegurança e o medo de ouvir a verdade, porém, a impediram de procurar um médico pelos próximos seis meses. Mas não teve jeito. Quando se deparou com o resultado da biópsia realizada nos nódulos, ela soube que os anos seguintes seriam difíceis. Ela tinha duas opções: acomodar-se no fundo do poço ou dar a volta por cima e enfrentar o câncer de mama. Na época com 32 anos e mãe de duas crianças, Lucília escolheu a segunda opção. Desenvolveu, então, uma prótese caseira para mulheres que retiraram a mama, trabalha como voluntária no Hospital de Base e hoje se diz uma amante da vida.

Em menos de um mês, Lucília estava sem os dois seios. “No início, eu queria ficar livre da doença. Mas é um baque muito forte para a mulher. É uma mutilação.” Durante dois anos — de 1990 a 1992 —, ela se redescobriu como mulher e foi obrigada a tomar as rédeas de uma nova vida. A vergonha de usar um vestido ou uma blusa decotada a fez criar uma prótese de espuma para colocar dentro do sutiã. O fim do casamento incentivou a então dona de casa a fazer um curso técnico de cabeleireira e de costura para sustentar os filhos de 11 e 5 anos. “É difícil demais curar o câncer. Ele tira a sua dignidade, te coloca lá embaixo. Além dos preconceitos que você sofre. É o que tem de mais agressivo para uma mulher”, desabafou.

Os dois filhos foram o maior incentivo para a cura da doença de Lucília. E o grande trampolim para a retomada da vida aconteceu em 1992, quando ela fez a reconstituição dos dois seios. Como na época não havia implante de silicone, ela foi submetida a uma cirurgia que retirava gordura da barriga para implantar no busto. “Valeu muito a pena. Temos que lutar pela vida, deixar o medo de lado, nos amar e amar a vida: é o nosso bem maior.” Animada e de bem com a vida, Lucília hoje se sente livre para usar blusas justas, com decote, e vestidos variados. E alguns dias de semana ainda trabalha no pequeno salão de beleza improvisado na garagem de casa, no Gama. “Foi assim que criei meus filhos, construí a minha casa e hoje pago meu carro. Consegui tudo o que eu queria”, orgulha-se.

Quando superou a doença, Lucília decidiu ajudar outras mulheres que passam pelo sofrimento com a doença. Em 2005, aderiu ao voluntariado da Rede Feminina de Combate ao Câncer, do Hospital de Base. O grupo de mulheres trata do câncer de mama e do colo do útero e realiza visitas às pacientes no ambulatório, doa lanches, acolhe e ensina os direitos das cidadãs. Após um ano de trabalho, a cabeleireira percebeu que algumas mulheres carentes também enfrentavam dificuldades como, por exemplo, a demora de conseguir prótese de silicone e para a reconstituição dos seios. “Na minha época, eu também não tinha condições. Pedi dinheiro emprestado à família e me virei para criar uma prótese para usar um simples vestido”, lembra.

Como funciona
A Rede Feminina de Combate ao Câncer funciona no Corredor 5 do Hospital de Base do Distrito Federal. Além de encontrar as próteses externas da mama, as pessoas encontram produtos à venda. Todo o valor adquirido é revertido para a ajuda às vítimas do câncer de mama e de colo do útero. O grupo também atende pelo telefone 3315-1221.

Juliana Boechat
Correiobraziliense.com.br
Publicação: 27/05/2010 08:21

quarta-feira, 12 de maio de 2010

Artista plástica sobrevive à grave doença e usa o coração como recomeço

Dar a volta por cima e recomeçar frente a situações adversas é muito legal, especialmente quando se compartilha as lições aprendidas com os outros, em forma de arte. Todos os males vêm para o bem!

Artista plástica que enfrentou uma grave e rara doença e depois disso teve a vida completamente modificada faz exposição e usa o principal órgão humano como símbolo de sua volta por cima.


Quem chega ali leva um susto. O que é aquilo? Que tantos corações pendurados são aqueles? Corações feitos usando várias técnicas: costuras. bordados, crochês. De todos os tamanhos, todas as formas. O que significa aquilo tudo? Estar ali, de cara, causa um certo estranhamento. Mas é bom que se entre. E a pergunta se faz inevitável: quem pariu aqueles corações? Sim, alguém lhes deu vida, mesmo que feitos de pano.

Na manhã de ontem, a “mãe” daqueles corações estava ali, segurando suas duas bengalas. Suas pernas emprestadas. O equilíbrio que lhe foi roubado. E ela ria, como se ri da vida e pelo fato de estar vivo. O encontro não poderia ser mais providencial. Suyan de Mattos, carioca em Brasília desde os 9 anos, é uma sobrevivente. Aos 48, descobriu que a melhor coisa é ainda existir.

Há um ano, ela morreu. E morreu sem saber que estava morrendo. Era pra ser um carnaval daqueles, em Pipa, litoral do Rio Grande Norte. Uma dor de cabeça a consumiu de tal forma que ela não conseguia mais nem pensar. Hospedada em casa de amigos médicos, eles primeiro lhe deram analgésicos. Nada. A dor só aumentava. Desconfiaram, então, de meningite. Quiseram interná-la num hospital de Natal. Ela resistiu. Teve medo. Preferiu voltar para Brasília, onde mora a família.


Do aeroporto de Brasília foi direto para um hospital particular se internar. “Fui atendida por uma médica boliviana, que me diagnosticou com sinusite e me deu remédios para aliviar a dor de cabeça. Só que a dor não passava, só piorava”, ela conta. Desesperada, Suyan resolveu deixar o hospital. “A médica fez minha mãe assinar um papel dizendo que eu estava saindo sem autorização dela. Minha mãe assinou.”

Suyan foi, então, para outro hospital, no fim da Asa Sul. “Lá, uma médica me deu um remédio na veia. A dor passou na hora. E me liberou para ir para casa.” Às 7h da manhã, porém, a dor voltou com maior intensidade. Suyan voltou para o primeiro hospital onde fora atendida assim que chegou de Natal.

“Fiquei três dias internada num ambulatório e só depois me levaram para a UTI”, lembra. E ali entrou em coma. “Um médico disse pra eu ir me preparando, porque o caso era muito grave. Eu vi o pior”, conta a advogada Adir Sant’Anna, de 71, mãe de Suyan. Um outro, tempos depois, disse: “Se viver, ela ficará com demência pro resto da vida”.

E finalmente um laudo conclusivo: a artista plástica estava com encefalomielite — uma doença autoimune, rara (ocorre em uma a cada um milhão de pessoas), que os médicos ainda não sabem se foi causada por vírus ou bactérias. O fato é que Suyan saiu daquele hospital paraplégica e surda. E com um pedaço de vida que insistia em recomeçar.

Era um duro golpe para a mulher que vivia intensamente. Formada em história pelo UniCeub, e em artes pela Universidade de Brasília, as horas não cabiam no único dia de Suyan. Depois de formada, prestou concurso para a Secretaria de Educação. Virou arte-educadora. “Mas eu vivia em crise comigo mesma. Foram cinco anos assim. Não sabia se era professora ou artista”, diz.

Partidas
Ela decidiu, então, que faria um mestrado em artes, fora do país. E partiu para a Universidade Nacional Autônoma do México. “Era pra viver dois anos ali. Fiquei cinco.” Do mestrado, ela seguiu para o doutorado em história da arte. Voltou para o Brasil. E virou professora provisória da UnB, da Secretaria de Educação e da Faculdade Dulcina. “Ela dava aula das sete da manhã às 11 horas da noite. Não parava”, conta a mãe.

Com as aulas, a artista plástica ainda participava de exposições coletivas e individuais pelo país e fora daqui. Mas a inquietação lhe era constante. “Todo artista é um voador”, confessa. E mais uma vez ela partiu. Foi para a Argentina. Em Buenos Aires fez o pós-doutorado, em artes, com bolsa do CNPq. Um ano e meio na terra de Evita. “Os argentinos, pelo menos os que conheci, são frios, eles não abraçam, não chegam perto. Senti solidão naquele lugar.”

Suyan retornou a Brasília. E foi dar aula no Iesb, na Unieuro, no UniCeub e na Foplac. Mais uma vez, a vida vira uma loucura. E mais exposições. No ano passado, no auge da sua produtividade, naquele carnaval que seria inesquecível, a vida mudaria para sempre. Sem andar, sem escutar nada, as limitações lhe causaram dependência diária. Ela se mudou da casa com jardim bonito onde morava sozinha, num condomínio do Lago Sul, para junto da mãe, no Guará I. E conta com a ajuda do pai, separado da mãe, e de dois irmãos mais novos.

Passou a viver numa cadeira de rodas. Chorou quando teve vontade. E quis recomeçar, quando se sentiu capaz para isso. Foi para o Hospital Sarah do Aparelho Locomotor. “Lá, eu aprendi a ser independente.” Conheceu gente que só movia a cabeça. Soube de histórias piores do que a sua. Riu com algumas, chorou com outras. Fez amigos pra toda a vida. “Descobri que precisava começar a fazer coisas pra deixar a minha vida feliz novamente.”

Ainda no Sarah, ela começou a criar os tais corações. “Os médicos, os enfermeiros, os pacientes, todos me perguntavam o que era aquilo. Eu dizia: ‘É arte contemporânea’. Ninguém entendia nada”, conta, às gargalhadas. E reflete: “Há um ano, tenho uma outra vida. Preferia a outra, mas é essa que tenho agora e vou ser feliz assim”, diz. Emocionada, faz uma confissão: “Tô viva. Adoro viver, mesmo sem nunca mais ter ouvido uma música”. A mãe, sem dizer uma palavra, balança a cabeça com gesto afirmativo. Adir é testemunha do renascimento da filha.

“Minhas meninas”
Com exercícios específicos, hidroginástica e acupuntura, os movimentos das pernas, aos poucos, foram voltando. Da cadeira de rodas, ela passou ao andador. Agora, com 15 kg a mais, se sustenta com ajuda de bengalas. “Chamo as duas de minhas meninas: Maria Rita e Maria Paula”, conta, com um sorriso de quem aprendeu a rir da vida e de si mesma.

Aposentada por invalidez pelo INSS e pela Secretaria de Educação, Suyan decidiu ser o que sempre foi: apenas artista. Agora, em tempo integral. Ainda sente dores na coluna, nas pernas e formigamento nos pés. Está surda, mas continua viva. Na manhã de ontem, a conversa foi intermediada pela mãe, sempre disposta a acompanhar a filha. Tão grave é a surdez que nem aparelhos resolvem o problema.

Quando se fala olhando diretamente para a artista plástica, ela consegue fazer leitura labial. Mas, ainda assim, há momentos em que o diálogo fica mais complicado. Adir, a doce mãe, entra em cena. A comunicação entre as duas é perfeita. “E olha que nossa relação não era das mais fáceis. Complicada mesmo. A Suyan sempre foi muito determinada, fez o que quis, independente”, diz a mãe. A filha reconhece e admite: “Acho que mudei, fiquei mais carinhosa com todos que me cercam, rio mais”.

Naquele espaço da Casa de Cultura da América Latina, da UnB, no Setor Comercial Sul, os corações de Suyan, feitos de panos, trapos e pura emoção, batem forte. Além deles e de toda a simbologia que representam, ela colocou um vestido e um babador (“que minha mãe pedia pra eu usar quando tava internada e precisava comer” e dois jalecos (“que eu usava no Sarah e roubei quando saí”).

Tudo virou arte nas mãos inquietas da artista que não segue rótulos. Até uma carta de um ex-namorado espanhol parou ali. “Meus ex-mortos estão todos aqui. Minhas loucuras sexuais também”, brinca, sem pudores. O nome da exposição? Vou te contar um segredo: o coração emudece. “É a realidade da minha vida, o que sou, minhas histórias, meus recortes de vida. O engraçado é que o título foi pensado há dois anos, antes de tudo acontecer”, explica. E continua: “A arte não me deu dinheiro, mas me dá êxtase, liberdade, prazer total”.

Pergunto à mulher que escolheu sempre ser perdidamente apaixonada — pelos homens e pela vida — como vão os amores. Ela responde, às risadas: “Tô sozinha. Um amigo me disse pra eu pagar um michê pelo menos para fazer o meu cateterismo (para ajudá-la no processo da urina)”.

Passa das 13h. A conversa precisa acabar. Há muito para a artista plástica fazer. Outras criações, novos trabalhos, novas ideias, mais um médico para ir... É a vida, como o coração que bomba o sangue, continuando. E ela mesma define essa vida: “É um brinde (“Nossa, que cafona!”). E continua, comovida: “É sofrimento, lágrimas, renascimento e eternidade. A gente só morre quando o coração para de bater”. Suyan sabe o que diz.

O sangue da vida
Exposição: Vou te contar um segredo: O coração emudece, na Casa de Cultura da América Latina (CAL) — Setor Comercial Sul, Quadra 4, Edifício Anápolis. De terça a sexta-feira, das 10h às 20h. Sábados, domingos e feriados, das 12h às 18h. Até o dia 23. Entrada franca.

Fonte: Correio Braziliense
Matéria de Marcelo Abreu