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sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Projeto do cineasta Fernando Camargos conquista cada vez mais jovens

É um curso gratuito, em quem eles se movimentam em torno do fascínio de trabalhar com uma câmera, criando, filmando e editando.

As mãos pequenas de Cristian Magalhães, 13 anos, morador da Cidade Ocidental, nunca haviam segurado uma câmera de vídeo. Aos poucos, o menino descobriu o prazer de guardar fragmentos da realidade. A vontade de capturar momentos sob uma perspectiva só dele foi brotando. Cristian descobriu também que pode ser o autor do roteiro da sua própria vida. Passo a passo, ele começa a escrever uma nova possibilidade de futuro para si mesmo.

Cristian é um dos 38 alunos do projeto Doc Criança, comandado pelo cineasta Fernando Camargos. Nesse projeto, são oferecidas aulas gratuitas de cinema a crianças e jovens de 9 a 19 anos, sempre aos sábados, na Biblioteca Nacional. A mãe de Cristian é guarda noturna, uma mulher trabalhadora que nunca teve muito contato com as artes. Passa o tempo todo lutando para dar aos filhos aquilo que ela nunca teve.

Todo sábado, Cristian acorda bem cedo e enfrenta sozinho, de ônibus, os mais de 50km que separam a Cidade Ocidental, no Entorno, do Plano Piloto. É um longo caminho até o aprendizado. Mas vale a pena. “Eu nunca tinha pensado em fazer cinema. Um dia, o professor Fernando conheceu minha mãe e ela perguntou a ele como fazia para ser cineasta. Ele disse que eu podia fazer o curso. Eu adorei”, disse Cristian.

Ele e os outros alunos aprendem a operar câmera, dirigir, editar vídeo, atuar e muito mais. Das 10h às 12h, eles filmam. À tarde, editam. “A diferença desse curso para os outros é que esse, além de ser de graça, é muito prático e completo, abrange todas as etapas do processo”, explicou Camargos. Os participantes são divididos em três grupos, por idade: Doc Criança, dos 9 aos 12; Doc Teen, dos 13 aos 17, e Doc Universitário, dos 18 aos 19. Em 60 horas, os alunos adquirem noções básicas para montar um filme. Para isso, precisam dedicar quase todo o sábado à atividade. Ficam das 10h às 16h na sala digital da biblioteca e ganham almoço.

Arte democrática
O Doc Criança existe há quatro anos e começou no Riacho Fundo. “Tenho três filhos e eles me pediram para ensinar a eles como fazer um filme. Montei um grupo com eles e amigos deles, no Riacho, onde moramos, e fui tomando gosto por ensinar crianças”, relatou Camargos. Depois disso, a iniciativa passou pelo Espaço Cultural Renato Russo, na 508 Sul, e ainda vai a diversas escolas públicas e particulares. Sempre de graça. “Eu não dou curso pago. Esta é minha proposta. Minha formação como cineasta foi muito cara. Se eu não tivesse meu pai para me apoiar, talvez não conseguisse. Quero incentivar o gosto pelo cinema em todas as classes sociais”, afirmou o cineasta.

O projeto é financiado pelo Ministério da Cultura/Secretaria de Cultura, por meio do projeto Ponto de Cultura, (1) com apoio da Biblioteca Nacional. Depois de ser selecionado para receber a verba, o trabalho de Camargos ganhou mais força. Ele comprou equipamentos melhores e o Doc Criança vai ficar durante três anos na Biblioteca Nacional. As inscrições estão permanentemente abertas e podem ser feitas por e-mail (doc.criancas@gmail.com). Basta estar na idade adequada para participar e ter vontade de aprender. Como a procura tem sido grande — por volta de 600 pessoas se inscreveram —, Camargos seleciona os próximos alunos por ordem de chegada.

Social
Os participantes têm perfis diferentes. A intenção é essa: a convivência entre diversas realidades. “Temos alunos com as mais variadas condições sociais aqui. Tem gente do Lago, de Ceilândia, do Guará, de Valparaíso e universitários”, apontou. Camargos conta com a ajuda de outros dois professores, Wagner Lopes Gama e Nina Orthof. Nas aulas, eles tentam envolver os alunos com temas educativos. O diretor convida frequentemente personalidades importantes para treinar nos meninos e nas meninas a habilidade de entrevistar.

A estudante Amanda Ehrhardt, 14 anos, moradora de Sobradinho, quer montar um curta-metragem. Escreveu o roteiro, vai dirigir e atuar. “Vai ser sobre a pracinha que fica perto do ParkShopping. Lá, rola muita coisa polêmica. Tem muito jovem e drogas. Quero mostrar como é fácil conseguir droga e como a falta de diálogo em casa pode piorar tudo. Os atores já estão ensaiados”, explicou. Amanda sonha alto: “Quero mandar meu curta para o Festival de Cinema de Brasília”.

As avaliações sobre o curso são as mais variadas. “Estar aqui é um jeito diferente de estudar, é muito mais legal que na escola. Não tem teste e ainda ganhamos almoço. Também é bom passar o sábado fora de casa”, afirmou Víctor Jaegger, 14 anos, que vive no Park Way. “Quero fazer faculdade de cinema e esse curso me dá uma bagagem muito boa”, completou Pedro Paulo Toledo, 18 anos, morador do Gama.

Alta tecnologia
Os estudantes filmam e montam os vídeos em alta definição. Usam os melhores equipamentos e programas de computador. A Adobe, empresa que detém os direitos sobre muitos dos softwares mais utilizados no mercado, acreditou no projeto e doou 16 pacotes completos do Master Collection, o mais avançado conjunto de programas multimídias da marca. O objetivo é incentivar a profissionalização desses jovens. Cada pacote custa, em média, R$ 6 mil.

Na sala digital, há também uma televisão Full HD de 70 polegadas que pertence à biblioteca. É a primeira parceria de cunho social da Adobe no Brasil. “O laboratório é mais completo que o de muitas universidades, que não são capazes de oferecer tudo isso”, explicou Camargos. Depois de prontos, os vídeos vão para a internet.

Tanto investimento começa a render frutos. Alguns alunos já estiveram entre os concorrentes de mostras competitivas no Rio de Janeiro e em Brasília. Aos 16 anos, a então participante da oficina Lorena de Sá apresentou no 42º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, em 2009, o curta-metragem Rodoviária do Plano Piloto. O filme, baseado em poema homônimo de Antônio Miranda, teve edição de outro aluno, Diego Camargos, 13. Lorena foi a diretora mais jovem a participar do festival, em todas as edições. Não levou o prêmio. Mas ganhou o principal: a certeza de que os meninos eas meninas do Doc Criança podem ir longe.

1 - Acordo cultural
Em junho de 2009, o Governo do DF assinou um acordo de cooperação com o MinC para firmar parceria com o projeto federal chamado Mais Cultura. A parceria viabilizou a distribuição de R$ 1,2 milhão entre 21 pontos da capital. Os programas beneficiados foram escolhidos de acordo com a capacidade de promover o acesso da população aos bens e serviços culturais.

DOC CRIANÇA
Aulas de cinema gratuitas
Inscrições: doc.criancas@gmail.com.
Canais para assistir aos vídeos feitos pelas turmas do curso: www.dzai.com.br/doccriancagmail/mypage , www.youtube.com/user/doccrianca1 e http://www.cecan.com.br/.

Leilane Menezes
Correiobraziliense.com.br

quinta-feira, 13 de maio de 2010

Ex-meninos em situação de rua formam talentos na Bahia


Histórias como estas mostram como é real e possível reverter quadros de extrema exclusão e vulnerabilidade. Muito bom!!

No bairro de Saramandaia, periferia de Salvador (BA), cinco ex-meninos de rua resolveram agarrar a oportunidade oferecida por um projeto social e mudar de vida. Hoje, três deles administram o Grupo Cultural Arte Consciente, que ganhou o Prêmio ODM Brasil por sua contribuição aos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio 1 (erradicar a extrema pobreza e a fome) e 2 (atingir o ensino básico universal). Mas foi preciso muito esforço até o reconhecimento.

Na adolescência, Antônio Marcos Gomes dos Santos, Fábio Santos de Jesus e Alex Sandro Pereira Lima passavam o dia na rodoviária da capital baiana vendendo jornais. Uma pequena parte do dinheiro arrecadado ficava com eles, e era utilizada para ajudar a família dos meninos, enquanto o restante servia para pagar um senhor que fornecia os diários. No entanto, como a venda da publicação no local era proibida, era comum os três serem levados por seguranças até o Juizado de Menores.

"Aí nós precisávamos carregar bagagens e engraxar sapatos para arranjar o dinheiro para pagar o homem que vendia os jornais", conta Marcos. Cansados dessa situação, os meninos agarraram uma oportunidade e começaram a participar de oficinas oferecidas pelo Projeto Axé. Lá, conheceram Josevaldo Cardoso de Jesus, o Tito, e Julivaldo Santiago.

A iniciativa deu a chance de os cinco conhecerem áreas que seguiriam no futuro: Marcos se interessou pelas artes circenses; Fábio, por boxe; Alex, pela percussão; Josevaldo, pelo grafite; e Julivaldo, pela dança. Inspirados no Projeto Axé, os ex-menores decidiram, então, fundar o Grupo Cultural Arte Consciente, para atender às crianças e adolescentes do bairro de Saramandaia e afastá-los do crime e das drogas.

Na época, o principal problema enfrentado pela comunidade eram as brigas de grupos rivais que moravam em ruas vizinhas. "Uma criança de um lado não podia descer pelo outro, e o nível de violência era muito alto", conta Marcos. Para mudar isso, o grupo promoveu várias caminhadas pela paz e, ao atender meninos de áreas distintas, ajudou a reduzir os conflitos.

Atividades
No início, os cinco ofereciam aulas de circo, boxe, percussão, grafite e dança nas ruas de Saramandaia. Porém, a falta de incentivos acabou fazendo com que Tito e Julivaldo deixassem o grupo. Os outros três deram continuidade ao projeto, que atualmente tem capacidade para atender 150 crianças – 50 na oficina de artes circenses, 50 nas atividades de boxe e outras 50 na de percussão.

Para participar das atividades, os menores precisam estar matriculados em escola, frequentar as aulas e ter boas notas. "Nós fazemos o acompanhamento duas vezes por semana. Qualquer queixa, chamamos a criança, que pode ser afastada caso tenha mau comportamento", explica Marcos. Mas isso quase não acontece, já que aprender uma arte nova dá a oportunidade de os meninos e meninas ganharem seu próprio dinheiro com apresentações por Salvador.

E não são só crianças e adolescentes que a iniciativa atrai. "Tem um senhor de 75 anos, o Felipe, que faz boxe, e um ex-detento de 29 anos que canta", acrescenta. Há um caso de sucesso que Marcos faz questão de contar: o de Juarez dos Reis Sousa, ex-viciado em crack e que seguiu carreira profissional no boxe.

Apesar das conquistas, as dificuldades são muitas. "Não temos funcionários, e estamos batalhando há sete anos para concluir a construção de nossa sede", diz Marcos. Para arrecadar dinheiro, os coordenadores do grupo fizeram um acordo com uma empresa que oferece a turistas estrangeiros a oportunidade de conhecer iniciativas em áreas pobres do Brasil, a exemplo do que acontece na favela da Rocinha, no Rio de Janeiro.

Segundo o trato, o grupo recebe um percentual do valor pago pelos turistas para conhecer o projeto. Além disso, contam com a solidariedade dos visitantes. "Eles deixam sempre R$ 100, R$ 200", explica Marcos. O dinheiro é investido nas obras para construir a sede, que já está em seu terceiro andar.

Fôlego
Nenhuma dificuldade desanima os ex-menores de rua. "Nós sabemos da importância de formar multiplicadores, que nem aconteceu conosco, então queremos passar isso à frente, porque dá resultado", afirma Marcos. Ganhar o prêmio ODM Brasil, concorrendo com mais de 1.400 projetos, ajudou a renovar o fôlego dos coordenadores do Grupo Cultural Arte Consciente.

"Ficamos sem palavras. Estou no maior chamego com o troféu", brinca Marcos, que ressalta que a vitória foi fruto de uma longa caminhada. "Agora, quando falamos que ganhamos o prêmio, sentimos que somos mais respeitados", opina o coordenador, que aproveita para deixar um recado: "Tudo é possível, basta se esforçar para mudar de vida. As oportunidades estão aí".

Além de concluir a sede, outra meta dos ex-meninos de rua no curto prazo é organizar um bloco para sair no Carnaval de Salvador, com as alas "circo", "boxe" e "percussão", para divulgar ainda mais o trabalho. "E queremos também voltar a oferecer aulas de dança e grafite", conclui.

DANIELLE BRANT
da PrimaPagina