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quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Exposição no Museu da República traz preciosidades do artista espanhol Joan Miró

Surrealismo libertário: obras de Miró que serão apresentadas ao público até 25 de novembroO Joan Miró que Brasília poderá conhecer a partir de hoje não está parado no surrealismo dos anos 1940 que o consagrou. Nem é de maneira convencional que será oferecido ao público brasiliense. A exposição do artista morto há 26 anos ocupa a partir de hoje o Museu Nacional do Conjunto Cultural da República ao lado de cinco jovens talentos da arte espanhola em um diálogo que refresca a obra de Miró e abre espaço para questões contemporâneas.

Los 24 escalones e Joan Miro tem desenhos, pinturas, gravuras e outras curiosidades do espanhol ao lado de obras de Diana Larear, Abigail Lazkioz, Juan López, Javier Arce e Raúl Belinchón. A ideia partiu da Fundación Joan Miró de Barcelona, que convidou o curador Jorge Diez para escolher artistas contemporâneos e ainda não consagrados com os quais a obra do surrealista pudesse dialogar.

A interação era vontade do próprio artista. Em Barcelona, a fundação mantém o Espai 13, uma sala de exposições à qual o público tem acesso depois de visitar a coleção de obras de Miró. Para chegar lá, é preciso descer 24 degraus. É um espaço experimental e Diez tomou a ideia, juntou a um livro de John Buchan e chegou ao nome da exposição. “Tem a ver com o caráter de estranheza de muitas pessoas a respeito da arte contemporânea, apesar de um número elevado dessas mesmas pessoas serem consumidoras da arte oferecida pelos meios de comunicação e pela indústria cultural”, explica Diez. “Por desejo explícito do próprio artista, a Fundação Miró está atenta para as novas propostas e tem dedicado espaço à arte emergente. Chega-se ao Espai 13 por uma escadaria descendente, que incrementa a sensação de estranheza dos visitantes não advertidos quando se defrontam com os projetos ali expostos.”

A rampa do mezanino do Museu Nacional parece estilhaçada, prestes a desmoronar graças à intervenção de Juan López. Com adesivos coloridos em amarelo, azul e vermelho — “as cores de Miró” —, o artista simulou um concreto quebrado para dar vazão à ânsia de modificar a arquitetura por meio do desenho. As intervenções de López agem no espaço como se quisessem transformá-lo. “O que me interessa é desenhar diretamente na parede. Não tenho ateliê e gosto dessa ideia de habitar um trabalho, porque quando faço uma intervenção praticamente vivo no espaço, passo tempo, me alimento. Gosto dessa ideia de um ateliê sempre mudando de lugar”, conta.

No centro da sala de exposições, as luzes ofuscantes da instalação de Diana Larear causam repulsa e atração. São dezenas de lâmpadas brancas dispostas em um labirinto geométrico pelo qual se pode passear. Na parede oposta, as grandes pinturas pretas funcionam como uma mescla de temas que preocupam Abigail Lazkoz há muito tempo. A guerra, principalmente.

Reflexão
Abigail trabalha com pincel direto na parede e idealizou os desenhos depois de ter acesso aos cadernos de notas de Miró durante as conversas e reuniões preparatórias com Jorge Diez. “Foi interessante ver o trabalho dele sem ordem temporal, todo junto. Miró trabalhava em séries fechadas e, ao ver os cadernos, pensei em mesclar as diferentes séries do meu trabalho”, conta. O fato de a guerra estar simbolicamente presente nas máquinas e objetos retratados vem de uma reflexão da artista sobre sua própria condição. Os pais de Abigail fazem parte da primeira geração nascida após a Guerra Civil Espanhola e a família é do País Basco, região de conflitos separatistas.

Mais adiante, nas vitrines, Javier Arce provoca ao sugerir objetos de arte em forma de mercadoria e Raúl Belinchón fala de tempo em fotografias de pedras. Nascidos na Espanha na década de 1970, os cinco artistas representam uma geração que chega agora à maturidade. Nem todos são diretamente influenciados por Miró — e Juan López garante que não é —, mas todos são herdeiros do diálogo entre a arte espanhola e o mundo iniciada e defendida por artistas como Picasso, Miró e Dalí em tempos de guerras e liberdades cerceadas. “Cada um dos artistas eleitos estabeleceu um marco próprio para o diálogo, em alguns casos mais explícito e em outros menos evidente, para acabar propondo intervenções específicas”, avisa Diez.

Preciosidades surrealistas
Além de pinturas, gravuras desenhos e uma escultura, o Museu Nacional recebe duas preciosidades pouco expostas nas mostras dedicadas a Joan Miró. No início da Segunda Guerra Mundial, o artista realizou uma série de 33 aquarelas intitulada Las constelaciones para retratar o pesadelo de um mundo em conflito. Em 1958, André Breton, fundador do surrealismo, compôs um conjunto de poemas em prosa para ilustrar a obra de Miró.

Para Los 24 escalones e Joan Miro, Jorge Diez selecionou 22 aquarelas da série. A mostra traz também um vídeo sobre o balé Jeux d’enfants, estreado pelos Balés Russos de Montecarlo, em 1932, e para o qual Miró realizou painéis, cenografia, vestuário e objetos de cena. “E haverá ainda os trabalhos audiovisuais Miró 37- Aidez l’Espagne e Miró l’altre. Para completar a aproximação de Miró há uma zona de consulta de publicações e vídeos que servirá de base para os ateliês pedagógicos organizados pelo Museu Nacional”, avisa o curador Jorge Diez.

Nahima Maciel
Correiobraziliense.com.br

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Arte de superar os limites virou a melhor obra das vidas de dois artistas

Uma pintora com paralisia cerebral e um músico que não enxerga abrem hoje, no Senado Federal, uma exposição comovente.

Uma moça que nunca andou, fala com dificuldade extrema e tem comprometimento de todo o aparelho locomotor. Um homem cuja última lembrança na vida foi a de ter visto o jaleco branco do médico que o operou. Ele contava 8 anos. Está com 53. A professora de artes que um dia conheceu esse homem, depois essa moça. Uma mãe que, ao saber que a filha tinha paralisia cerebral, demorou três dias para ter coragem e perguntar à médica o que aquilo queria dizer para o resto da vida. E uma produtora cultural que viu toda essa história e escreveu um projeto. E o projeto virou arte. Juntou pintura e música. A melhor de todas.

História danada de boa essa. A moça que não anda e vive cheia de limitações é uma pintora. Das melhores. O homem que não enxerga é compositor, arranjador e instrumentista. No violão, ninguém o detém. A professora de artes que um dia conheceu ambos virou curadora. A mãe que não sabia o que fazer com aquela sentença nunca mais perguntou por que aquilo havia acontecido com sua filha. A produtora cultural é autora de um projeto de sucesso, há um ano e meio correndo estrada.

E hoje, às 15h, no Salão Branco do Senado Federal, a pintora de sorriso encantador e o tímido músico mineiro estarão juntos, inaugurando a exposição Arte superando barreiras. Kátia Santana mostrará 11 pinturas abstratas, em acrílico sobre tela. Evaldo Leoni cantará músicas de própria autoria e de compositores consagrados da Música Popular Brasileira. Enquanto Evaldo estiver cantando, Kátia pintará mais uma obra.

Ivana Andrés, 59 anos, a professora de artes, que há sete anos acreditou que essa moça poderia pintar de verdade, vai estar ao lado da aluna. Simone Senra, 41, a produtora cultural, verá seu projeto, mais uma vez, ganhando espaço e elogios rasgados do público. E Izabel Nedina, 48, cabeleireira, a mãe, certamente chorará em algum canto daquele salão do Senado Federal. E toda lágrima que derramar não terá sido em vão.

Na tarde de ontem, o Correio foi ao encontro de Kátia e Evaldo, que haviam acabado de desembarcar de Belo Horizonte (MG), onde moram. Ela, aos 29 anos, é pura alegria. A primeira vez em Brasília. Ele, aos 53, é mineirinho de tudo: fala baixo e tem no violão o melhor confidente. Ela, de cabelos pintados de loiro, com uma borboleta tatuada no ombro esquerdo e piercing discreto no nariz, diz, num esforço sobre-humano: “É com a arte que expresso a minha alegria e minha tristeza”. Ele, sentadinho, com o violão no colo, declara, com sinceridade comovente: “A música é toda minha vida”.

Izabel olha para a filha, para os quadros da artista que começavam a ser colocados na exposição e reconhece: “Ela é o meu maior orgulho. Meu maior aprendizado”. Ivana, também pintora consagrada, filha da mestra Maria Helena Andrés, admite: “Para pintar, é preciso ter coragem. E Kátia não tem medo de perder um quadro e refazê-lo, transformá-lo”. Sobre a dificuldade motora da aluna em pegar o pincel, a professora é categórica: “O olho é mais importante que a mão”. Evaldo, que não enxerga, usa as mãos ágeis para fazer mágica com as cordas do seu violão. A pintora com paralisia cerebral e o músico que nada vê se completam. E se entendem nas suas diferenças.

Renascimento
E esse encontro é tão comovente quanto a própria arte que brota das mãos de ambos. “Esse é um projeto de oportunidades. A inclusão é nossa. O preconceito é nosso. Esse foi um encontro de todos nós”, diz Simone, a produtora. O projeto Arte superando barreiras foi patrocinado pelo Ministério da Cultura, por meio da Lei Federal de Incentivo à Cultura (Rouanet). Teve também o apoio do jornal O Estado de Minas, pertencente aos Diários Associados, e de algumas empresas mineiras.

Durante um ano e meio, Kátia e Evaldo expuseram em Belo Horizonte, em Nova Lima (MG), em São Paulo, e agora chegaram a Brasília, para o encerramento do projeto que mudou a vida de ambos. “Ela ficou mais confiante, mais feliz”, percebe a mãe. Kátia escreveu, em seu computador adaptado: “Comecei a pintar há cerca de oito anos porque estava com depressão. Logo comecei a me sentir cada vez melhor e mais livre.... Penso que quando alguém desiste de sonhar desiste da vida”.

Evaldo, com o projeto, passou a apresentar semanalmente o programa A arte de superar barreiras, numa rádio comunitária de Belo Horizonte. No espaço, histórias de superação de pessoas com qualquer tipo de deficiência são abordadas. Ele canta e recita poesias — de vários autores e também dos convidados entrevistados. E nunca tocou tanto quanto agora no Voz e Poesia, grupo musical do qual faz parte.

A pintura de Kátia tem muita cor e luz. Tem magia. É alegre e convida, pelo abstrato, para uma viagem. A artista sabe exatamente quais os caminhos aonde pretende chegar. “Ela tem uma experiência autodidata. Às vezes, começa o quadro pelo meio. E, mesmo com toda limitação, é rápida. Pintou três telas grandes em menos de três horas”, exulta a professora de artes, embasbacada com sua primeira aluna tão especial.

A música de Evaldo tem cheiro das Minas Gerais. É suave, baixa e tem um quê de Clube da Esquina. O compositor é fã de carteirinha de Milton Nascimento e de toda aquela turma que se formou naquela época. Gosta do verso, da poesia dita com honestidade. E foi essa música, estudada à exaustão, que fez o menino que perdeu a visão aos 8 anos, em decorrência de um glaucoma avassalador, acreditar a que a escuridão não seria o fim. “Aconteceram tantas coisas boas na minha vida que não penso mais na cegueira”, diz o homem que se casou pela terceira vez e tem dois filhos, um deles também músico.

Acessibilidade
Sessão de fotos para a matéria. Kátia, sorrindo riso de felicidade, pergunta ao fotógrafo: “O Evaldo aparece também?”. Ela enxerga pra ele. Ele caminha pra ela. “Ela é linda, espetacular”, diz o músico. Ela ouve e ri. Ele não vê, mas sente. Ela fala, de novo fazendo um esforço danado para ser entendida: “Quando pinto, sinto que tô livre, fora da cadeira de rodas”.

E é no Senado Federal, lugar onde o país se reconhece, se espanta e de quando em vez ainda se enche de esperança, que a exposição terá seu desfecho. Mônica de Araújo Freitas, presidenta do Programa de Acessibilidade do Senado Inclusivo, elogia o trabalho da dupla.

Ela conta que a Casa, há seis anos, passou a tratar como prioridade o direito de ir e vir dos que têm limitações. “Fizemos reformas e adaptações estruturais, compramos equipamentos, temos intérprete de Libras e realizamos um censo para saber quantos funcionários são portadores de necessidades especiais. Todo ano, em dezembro, realizamos a Semana do Senado Inclusivo. Virou um sucesso, nosso compromisso.”

Kátia olha os quadros sendo colocados nos painéis. Dá palpite. Quer ver sua obra mais bonita. Sentadinho, Evaldo afina as cordas do seu instrumento. É hoje, daqui a pouco, a abertura da exposição da pintora e do músico. Pergunto a ela como está a emoção. Ela responde: “Tô muito feliz, o coração tá batendo cada vez mais forte”. Ele só quer fazer o que mais gosta: tocar, tocar e tocar. Em seu computador, Kátia escreve páginas do livro que vai lançar, Um sonho de vida: “Sou assim, livre. presa, triste, alegre, segura do que faço e firme nas decisões. Desejo aprender sempre mais e acreditar que tenho forças para continuar. Sinto a luz de Deus dentro de mim”. Não há mais o que perguntar. Deixa a música de Evaldo seguir.

Essa história é boa demais. Boa pra contar. Melhor ainda pra ver e ouvir. E sentir.

Marcelo Abreu
Correiobraziliense.com.br

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Artista plástica e arquiteta tenta provocar a percepção visual dos estudantes


Déa Garcia transforma muro de uma escola do Lago Norte em obra de arte usando a técnica trompe l'oeil, que dá a impressão de terceira dimensão.

Déa Garcia, artista que criou o painel, e, acima, sua filha Anita tentando abrir uma porta: elementos que criam ilusão de ótica promovem interação com o público Muitas pessoas costumam dizer que só acreditam em alguma coisa vendo. Mas o olhar pode levar o ser humano a assumir como concreto o que não passa de ilusão. Os artistas fazem esse jogo ilusório volta e meia. A perfeição de certas técnicas obriga o espectador a se questionar. A velha história do “parece mas não é”. Os gregos, precursores de tantas artes, começaram a brincadeira(1). Os barrocos inventaram o trompe l’oeil (em francês,“engana o olho”), método que produz imagens tão reais que criam a ilusão de óptica de que os objetos estão em três dimensões. Os renascentistas a desenvolveram à perfeição com a descoberta da perspectiva. Ontem foi a vez de os brasilienses vivenciarem uma experiência curiosa dessas. Um muro do Colégio do Sol, no Lago Norte, se tornou uma cidade pelas mãos da arquiteta e artista plástica Déa Garcia. Uma homenagem a uma arte cada vez mais rara e à diversidade da arquitetura brasileira.

O trabalho de Déa teve que ser monumental: a tela em branco era um muro de 120 metros quadrados que divide o pátio da escola e o terreno vizinho. A ideia de transformar o espaço em arte veio das diversas visitas que a artista faz ao colégio para buscar a filha, Anita, 10 anos. “A escola é cheia de arte e, no entanto, sempre achei esse lugar, tão usado pelas crianças, sem vida”, avalia. Há mais ou menos três meses, Déa sugeriu ao diretor da escola, o professor Erly Ferreira Gomes, uma intervenção artística. “Não pensei duas vezes”, afirma Erly. E aprovou.

Déa já tinha um plano na cabeça. “Achei que seria uma oportunidade de resgatar o trompe l’oeil. É uma técnica tão difícil — é feita em grandes proporções, requer andaimes, desenhos precisos — que os próprios artistas contribuíram para sua extinção”, lamenta. Primeiramente, ela concebeu um desenho europeizado sugerindo uma paisagem da Itália, país em que a técnica foi amplamente difundida durante o Renascimento. Mas, assim como é preciso olhar duas vezes para reconhecer uma ilusão, a artista repensou o motivo. “Decidi explorar a arquitetura brasileira, que, tendo sido influenciada por tantas culturas estrangeiras, se tornou única e muito rica”, explica.

Foram dois meses de trabalho constante, sempre acompanhado por observadores astutos. “Recebi muitas sugestões dos alunos. Teve um que me alertou sobre a variedade de cores: ‘Você não tem nada laranja. Não se esqueça de colocar alguma coisa laranja’”, recorda Déa.

O resultado foi a criação do mural Vila do povo brasileiro. Impossível como é representar todo o léxico arquitetônico do Brasil, prevaleceram as imagens clássicas, como o estilo do interior de Goiás, o barroco de Minas Gerais, a taipa brasileira descendente da africana, a oca, elementos do modernismo, a palafita, a azulejaria portuguesa e até os arranha-céus comuns tanto em São Paulo quanto em outras metrópoles do mundo. E todos esses exemplos, defende a artista, podem ser encontrados em Brasília. “Pessoas de todos os lugares do Brasil vieram para Brasília e guardam as referências dos lugares de onde vieram. Mesmo que você tenha nascido em Brasília, tem um parente que mora em outro estado e consegue assimilar os traços dessa arquitetura.”

Imersão
Os meninos do grupo dos quadrinhos: arte abstrata caiu no gosto de todos os alunos A principal diferença entre outras formas de pintura e o trompe l’oeil é a relação entre a obra e o público. “Você vai a um museu e contempla um quadro. Com o trompe l’oeil, não. Você não tem escolha. A interação é inevitável”, explica Déa. A técnica também foi escolhida para o local como uma provocação à percepção visual dos alunos. A artista acredita que é preciso instigar a formação gráfica das crianças — a interpretação da imagem é tão importante quanto a da escrita. Ela lembra que a sua curiosidade para a arte foi influenciada pelos desenhos do pai, que é publicitário. Dono de um arsenal de lápis de cor, tintas e outros materiais insuportavelmente atraentes à mente criativa de uma criança, ele esbravejava quando se dava conta de que a filha havia circulado pelo escritório e usado os materiais. “Mas, por mais que eu bagunçasse, ele nunca trancou a porta”, lembra Déa, risonha.

“Assim como os jogos de videogame, o mural também é uma experiência virtual”, explica. A diferença é que neste virtual há a oportunidade do toque. E as crianças tocaram. Objetos reais, como maçanetas de portas e lamparinas, foram instalados no mural, e não faltou quem tentasse abrir as portas. Queriam ver o resto da mulher que aparece atrás de uma porta entreaberta. Pressupor a necessidade de explicação aos jovens é redondo engano. São eles que ensinam os interlocutores. “A vila foi feita com um técnica que mistura pintura com o 3D. Dá pra ver que ela utilizou a perspectiva”, ensina Pedro Henrique Fernandes e Lopes, 12 anos. Murilo Vasconcelos, um ano mais novo que o colega, agrega: “Achei muito interessante, deixa o colégio mais colorido. A cultura influencia muito a vida das pessoas”.

Os dois, com os amigos Júlio Marino Figueiroa da Conceição e Patrick Boescheinstein, ambos com 11 anos, têm um grupo — ou seria uma editora? — de quadrinhos no colégio. Em poucos minutos, um adulto de penúltima geração se espanta com a versatilidade dos meninos-marchandes. “No começo parecia arte abstrata, não dava para ter muita noção de como ia ficar”, argumenta Murilo. Questionado sobre o significado de “arte abstrata”, ele não tibubeia: “É uma arte sem figuras definidas, mas que simboliza alguma coisa”. É espantador.

1 - Arte de iludir
O naturalista romano Plínio, o Velho, conta uma anedota entre Zeuxis e Parraso, pintores renomados da antiguidade helênica. Em uma disputa para eleger o melhor entre os dois, Zeuxis pintou um cacho de uvas. De tão realista, diz a história, passarinhos tentaram bicar as frutas. Passado um tempo, ele pede a Parraso que puxe as cortinas que cobriam a obra para que o rival a visse. O pedido é, na verdade, a confirmação da vitória do oponente: as cortinas haviam sido pintadas por Parraso.

Ariadne Sakkis
Correiobraziliense.com.br

quarta-feira, 5 de maio de 2010

O melhor quadro de Lucio: ele mesmo


É muito legal notar que nossa sociedade, cada vez mais, percebe que pessoas com Síndrome de Down vivem e convivem normalmente, possuem sucessos e fracassos tal qual qualquer pessoa. Alguém se arrisca a dizer que consegue pintar quadros tão bonitos quanto os desse artista?

Concorrendo com mais de 50 artistas da cidade, adolescente com síndrome de Down vence todas as etapas do edital público do Superior Tribunal de Justiça e abre hoje, no Espaço Cultural da Casa, sua terceira exposição individual. São 25 obras, cheias de cor, magia e talento

Quando ele nasceu, os médicos logo disseram àquela mãe: “Seu filho tem um problema. E tudo será muito lento na vida dele. Será uma criança que vai demorar a andar, a falar e aprenderá todas as coisas, se aprender, com muita dificuldade”. Foi assim, sem metáforas, sem rodeios. A mãe chorou como choram mães em desespero. Sofreu como sofrem mães que recebem uma notícia triste do filho que acabou de nascer. O mundo desabou. Era o terceiro filho, o caçula, o que completaria a família. “Mas só chorei por dois dias”, ela diz. A mulher enxugou o pranto, guardou a dor, rasgou o prognóstico cruel e decidiu: “Se houver alguma coisa para ser feita, eu farei para salvá-lo”.

Hoje, daqui a pouquinho, esse menino que nunca aprenderia as coisas abre a terceira exposição individual de pintura de sua meteórica carreira de dois anos. Lucio Piantino é um artista. Um pintor genuíno. Deslumbrantemente talentoso. Lucio tem síndrome de Down, mas isso é um mero detalhe, apenas mais uma informação sobre esse menino que pinta quadros cheios de cor como pinta a vida. Lucio sempre emociona.

E quem mais tarde for ao Superior Tribunal de Justiça (STJ) verá 25 obras — 12 absolutamente inéditas e de vários tamanhos — do adolescente que encontrou na arte sua melhor forma de expressão. Perto de completar 15 anos, ele pinta como adulto. O primeiro quadro, rascunhou ainda aos 5. Aos 13, a primeira exposição. Agora, a certeza: a pintura que surge de suas mãos inquietas é sua melhor catarse.

Aos 51 anos, a mãe de Lucio, a artista plástica e escritora Lurdinha Danezy Piantino, só chora. “Mas de completa felicidade. É a luta diária para lutar contra o prognóstico ruim que me deram. Aceitei o diagnóstico da síndrome numa boa, mas nunca a sentença que me impuseram ao meu filho.” O pai dele, o também artista plástico Lourenço do Bem, 54, torce pelo sucesso do filho.

Hoje, Lucio fará uma grande surpresa para os convidados. Receberá todos que forem à abertura da sua exposição dançando hip-hop. Isso mesmo. Além de pintor, ele também dança. “Adoro o Chris Brown (cantor norte-americano de hip-hop). Ele é demais”, ele diz.

E quem lá estiver vai se deparar com um mundo de cores. Adepto da técnica mista — acrílico e vinílica — , Lucio passeia pelo abstrato e tem flertado bastante com o expressionismo. A pintura dele é espontânea, forte, viva. Muito viva. O mais legal disso é poder “viajar” em cada tela. Cada um interpreta como quiser.

Cioso da sua obra, ele mesmo deu nome a todos os quadros: Montanha russa, Ovo, Mais louco, Escorregador, X maluco, Arco e flecha, Sol, Tigre, Jogo da velha, O bicho vai pegar, Rap, Manobra de skate, dragão, Joana (em homenagem à irmã de 17 anos), Michael Jackson, Chris Brown... E, claro, há uma obra que ele batizou de Hip-hop. “Penso sempre na música negra, no movimento dela”, explica.

Talento premiado
Na exposição O menino que virou arte, no Espaço Cultural do STJ, Lucio deixará sua marca até o dia 26 deste mês. Para chegar ali, o pintor concorreu com outros 50 artistas da cidade. Submeteu-se às regras do edital público. Foi selecionado entre os 10 melhores que farão parte do calendário de exposição da Casa deste ano.

A comissão multidisciplinar, composta por artistas, sociólogos e psicólogos, levou em conta a obra de todos os concorrentes como um todo. “Em nenhum momento, o fato de ele ter síndrome de Down contou a favor. Não houve nenhuma condescendência por isso. Diferenças são diferenças e elas estão presentes em cada um de nós”, explica Jaime Cipriani, de 47 anos, coordenador de Memória e Cultura do STJ. “O que se levou em conta foi o talento dele, a forma como sente o mundo e a espontaneidade com que expressa isso na obra.”

Jaime, sensivelmente, enxergou a alma de Lucio pela pintura nos seus quadros. E quem for lá amanhã e nos próximos dias terá a mesma sensação. A pintura dele explode na retina, arrepia, faz sair daquele lugar onde homens usam toga e decidem destinos.

Sua arte é criança, adulta, mulher, homem. É plural. É diferente, como somos todos nós. É ele, do jeitinho dele, uma arte ora debochada, moleca, irreverente e verdadeira, tanto quanto o artista. É singular. Extasiada, Lurdinha, a mãe de profundos e ternos olhos verdes, admite: “Pinto há 25 anos. Mas nunca pintei tão bem como o Lucio. Não sei trabalhar com cor. Ele é um artista completo. Vê-lo pintar me enche de prazer”.

Romper fronteiras
Mãe pode ser passional. Quase sempre o é. Mas o reconhecimento do talento de Lucio vai além de casa. Ecoa além da boca de Lurdinha. Omar Franco, 53 anos, pintor mineiro radicado em Brasília, reconhecido nacionalmente, certa vez escreveu sobre o artista, ao conhecê-lo: “Ao ser apresentado à arte de Lucio, senti saudade de quando eu ainda era menino do interior de Minas Gerais. Achava que o mundo não ia muito além das montanhas que cercavam a cidade onde vivia. Mas, como o meu universo era vasto, infinito, não havia tinta nem papel que desse conta de tanta produção”.
E continua: “Lucio não economiza telas, tintas e espaço. Ele se apropria de grandes áreas com gestos largos... Seu mundo é abstrato, dinâmico, vibrante. O pintor e pintura se misturam... Suas telas expressionistas nos devolvem a espontaneidade e a coragem que perdemos, quando nos tornamos adultos secos e quebradiços”. E encerra: “Lucio tem uma infinidade ancestral com a linguagem visual, que dá ele uma dimensão maior da vida... A arte foi feita para que possamos ousar e romper fronteiras. Lucio sabe disso”.

Cursando a 6ª série numa escola pública e de ensino regular da Asa Norte, o artista convidou todos os colegas para a exposição. Especialmente uma amiga, por quem se tomou de paixão. Ao vê-la, o coração dispara. “Ela me disse que vem”, ele diz, rindo. “Ele está numa ansiedade danada com mais essa exposição. Nem tem dormido direito”, entrega a mãe. Coisas de artista antes de toda estreia.

Lurdinha, que é separada do pai de Lucio e assumiu e assume todas as brigas quando percebe que o filho pode ser discriminado, emociona-se mais uma vez: “Eu nunca desisti dele. Mudei-o de escola todas as vezes em que ele não foi aceito, fiz denúncia no Ministério Público, lutei pra que ele fosse feliz. E ele virou artista. Tive fé na vida. Acho que posso morrer agora. Sei que ele será capaz de continuar...”

Lucio olha seus quadros na exposição. Explica cada tela. Abraça o repórter, chama-o pelo nome. Brinca, conta histórias. E admite: “É, eu acho que sou artista”. O menino ri com verdade. De longe, Lurdinha admira o filho. Encantamento de mãe, de artista que entende artista. Os dois são cúmplices no olhar. Comunicam-se, às vezes, sem palavras. Numa das paredes do Espaço Cultural, o visitante lerá uma mensagem que Lurdinha escreveu, há dois anos.

Ela conta o começo de tudo, desde o terrível prognóstico. E a superação: “O menino cresceu cercado de amor, carinho e estimulação, muita estimulação. Para surpresa de todos, andou, falou e aprendeu. Aprendeu muito. Aos 4 anos, já sabia ler 35 palavras. Fez teatro, capoeira, hip-hop, violão, artesanato. foi garoto propaganda. E pintou, pintou muito. Virou artista”. O melhor quadro de Lucio, sempre, em qualquer exposição, será ele mesmo.

NÃO PERCA
Exposição O menino que virou arte, de Lucio Piantino. Abertura hoje, às 18h30, no Espaço Cultural do STJ — SAFS Quadra 6, Lote 1, Trecho 3 / Prédio dos Plenários, segundo andar/mezanino. Visitas até dia 26. De segunda a sexta-feira, das 9h às 19h. Contato: Lurdinha — 9297-5885.

Correiobraziliense.com.br
Marcelo Abreu
Publicação: 05/05/2010 10:33