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quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Portadora de deficiência visual leva esperança a outros com mesmo problema

A visão começou a abandonar os olhos de Nayara Magalhães dos Santos muito cedo. Era difícil decifrar o que diziam os livros escolares. A menina ampliava os textos e as figuras, tentava ir além da própria capacidade — o que se tornou um hábito —, mas a cabeça só doía. E nada de o mundo parecer mais fácil de desvendar. Apesar de ter nascido com uma doença grave, a retinose pigmentar progressiva (veja Para saber mais), a menina de cabelos e olhos claros foi criada para ser otimista. Nunca acreditou que perderia totalmente a visão.

Não aprendeu o braille, sistema de leitura por meio de pontos, quando era criança. A família, superprotetora, preferia acreditar que não seria necessário. Mas foi. Aos 18 anos, Nayara teve uma perda brusca na habilidade de enxergar. “Os médicos acreditam que a minha visão piorou depois que minha mãe adoeceu e ficou muito tempo no hospital. Pode ter sido o nervoso, o baque emocional”, explicou a jovem. “Não me preparei para isso porque meus pais acharam que o melhor para mim seria esconder esse problema. Eles não queriam aceitar a verdade, que teriam uma filha com uma deficiência em um mundo não adaptado”, completou.

Hoje, Nayara tem entre 15% e 20% da capacidade de ver, durante o dia. Ao anoitecer, cai para 10%. Mas a falta do sentido não a impede de ir longe. À época da piora, Nayara se preparava para o vestibular. Sonhava em cursar serviço social na Universidade de Brasília (UnB). “Estudei a vida toda em escola pública e todo mundo sabe que assim fica mais difícil. Eu não tinha acesso a nada que facilitasse a minha situação como deficiente visual”, afirmou.

Mesmo diante do problema, Nayara matriculou-se em um cursinho preparatório para o vestibular. Gravava todas as aulas, enquanto uma amiga ajudava e lia os textos para ela. E assim Nayara estudou mais de 10 horas por dia, durante um ano. Passou na segunda tentativa. “Escolhi o serviço social porque é o curso que mais trata de políticas sociais. O profissional dessa área defende um grupo vulnerável, as minorias. O primeiro auxílio que as pessoas procuram é o de um médico. A maioria deles trata a deficiência visual apenas com uma doença e não leva em consideração o social. A assistente atua justamente nesse setor”, justificou.

Mudança
Nayara conheceu um mundo diferente. Estava habituada a uma vida de isolamento: “Sofri muito bullying na escola. Tinha que me sentar sempre muito perto do quadro, às vezes tropeçava nas coisas, batia a cabeça. Aprendi a me afastar dos outros para me defender”. Na universidade, a jovem encontrou amigos, alunos como ela ou professores. Conheceu o Programa de Apoio aos Portadores de Necessidades Especiais (PPNE). Nele, a estudante tinha direito a três tutores. Eles eram alunos bolsistas que a ajudavam durante a aula e nas provas.

“Quando percebi que muitas pessoas acreditavam em mim, me vi capaz de qualquer coisa”, lembrou. Quase quatro anos depois de ingressar na UnB, Nayara deu início ao trabalho de conclusão de curso, a monografia. O tema não poderia ser outro: o acesso dos portadores de necessidades especiais ao nível superior. “Escolhi pesquisar porque há tão poucos deficientes nas universidades. É um problema que vem do ensino básico, passa pelo médio e leva a uma barreira no momento de ingressar na faculdade.” Nayara encontrou pouca bibliografia. Contou com a ajuda de computadores com leitores de tela.

Dificuldades
O trabalho trata das falhas na acessibilidade dentro da UnB. “Faltam calçadas adaptadas, tudo é muito longe. Sempre esquecem um orelhão no meio do caminho, um buraco no meio da rua. A cidade toda é assim e a universidade não é diferente”, apontou. Mas o foco da pesquisa de Nayara é mais polêmico que a questão da mobilidade. A monografia leva o título Sistema de cotas para deficientes, uma alternativa viável.

“Percebi que a quantidade de deficientes só diminuía na UnB. De acordo com pesquisas, 26 mil deficientes concluíram o segundo grau no último ano. A demanda pelo ensino superior existe. Só há 48 deficientes na UnB inteira. Desses, somente 15 têm algum problema como surdez ou na visão. Os outros sofrem de dislexia, etc.”, constatou. Nayara entrevistou os professores do PPNE e os alunos especiais. “Na minha hipótese, achei que não iam concordar com o sistema de cotas. Mas me surpreendi. Apenas um deles se colocou contra.”

Na conclusão, pela própria experiência de vida e pelo que viu na UnB, Nayara optou por defender a reserva de vagas no vestibular para portadores de necessidades especiais. “Seria uma política de equiparação de oportunidades. Algo paliativo e não permanente. Quando a universidade conseguisse atrair esse público, não seria mais necessário”, argumentou.

“Essa medida teria de ser articulada com uma política de mudança no sistema educacional inteiro, desde o ensino básico. Deveria também ser acompanhada de uma política de permanência dentro do ensino superior, como o oferecimento de bolsas de pesquisa especiais”, acrescentou. Ganhou nota máxima, o SS. Agora busca meios de divulgar suas ideias e contribuir efetivamente com a sociedade.

Nayara não deixa de surpreender. Este mês, assumiu o cargo de assistente social na Secretaria de Justiça. Foi a única que passou no concurso para essa atividade específica. Agora, acompanha jovens que cumprem medida de liberdade assistida. Vai, inclusive, visitar a casa deles e orientar as famílias para que os adolescentes não voltem a cometer crimes. “Para poder levar uma vida normal, é preciso aceitar-se. Depois, tentar ser independente, o máximo possível. E, principalmente, agarrar todas as oportunidades”, ensinou. Quem olha para Nayara não reconhece a limitação de imediato. Vê apenas uma jovem de traços suaves, maquiada com delicadeza, usando luzes no cabelo e unhas pintadas de rosa-claro. Na tarde de ontem, ela se exibia, esbelta, em um vestido verde, da cor da esperança.

Leilane Menezes
Correiobraziliense.com.br

Menino que ficou cego ganhou concurso de redação na escola

Prematuro, Pedro Henrique teve retinopatia e aos poucos foi perdendo a visão. Aos 12 anos, a cegueira total. Ainda assim, é um vitorioso. Ele também coleciona medalhas de natação.

Ele nasceu com 49cm e pesava 1,2kg. A mãe, que aos três meses sofreu um descolamento de placenta, teria uma gravidez de altíssimo risco. No sexto mês, começou a sangrar. E não deu mais para esperar. Uma cesariana foi feita às pressas. E nasceu o menino, que logo teve que ir para a incubadora. Ficou ali por 180 dias. Precisou de oxigênio para se manter vivo. Saiu do hospital, em Rondonópolis, no Mato Grosso.

A vida seguiu. A mãe, moça que contava 20 anos à época, criou o segundo e último filho com toda a dedicação que uma criança prematura requer. Levou-o a todas as consultas. Acompanhou cada alteração. E comemorou os pequenos progressos. Aos nove meses, em mais uma visita de rotina ao médico do posto de saúde, algo estranho aconteceu. O pediatra percebeu que o bebê tinha estrabismo.

O médico recomendou à mãe que levasse o filho a um oftalmologista. Com um ano e seis meses de vida, o menino começou a usar tampão nos dois olhos, alternando no direito e no esquerdo. A mãe fez tudo como o especialista determinou. “Um dia, coloquei um brinquedo no chão e percebi que ele não via, não pegava”, lembra a auxiliar de serviços gerais Cristiane Cruz da Silva, hoje com 36 anos.

Mais consultas médicas. O que era apenas um severo estrabismo logo recebeu outro nome. Pedro Henrique Cruz Araújo tinha retinopatia da prematuridade, alteração no crescimento da retina. Assim, cada vez enxergando menos, Pedro Henrique cresceu.

Aos seis anos, não quis mais ir à escola. Nem brincar com os amigos. Nessa idade, o menino teve sua primeira grande tristeza. “Eu só via as cores, mas não conseguia enxergar o rosto das pessoas, os detalhes. Eu passei a reconhecer pela voz”, ele lembra.

Era preciso fazer alguma coisa urgente. E só havia uma cirurgia. Onde fazer? Como fazer? Cristiane precisava chegar a Campinas (SP) com o filho. Uma verdadeira campanha de solidariedade foi realizada. “De rifa a pedágio, tudo fizemos. Foram quase dois anos de luta”, ela conta. Conseguiu arrecadar a quantia para chegar a Campinas, em busca de um especialista.

Em São Paulo, os médicos acharam melhor que Pedro Henrique fosse submetido a uma cirurgia no Instituto da Visão, em Belo Horizonte (MG). Era 2003. Quatro procedimentos cirúrgicos — dois em cada olho — foram realizados. Pedro Henrique contava 8 anos. “Eu fiquei muito feliz. Passei a ver os carros na rua”, ele conta.

A felicidade de ver a vida e as cores foi logo interrompida. “Ele sofreu uma rejeição do silicone que cola a retina no olho direito, o que provocou o descolamento total”, explica a mãe. Em seguida, houve a mesma coisa com o olho esquerdo. Ele voltou a ter apenas 10% da visão.

Mudança de vida
Veio, novamente, a tristeza. Era como se o mundo estivesse desabado. Em 2005, a mãe decidiu que em Brasília o filho teria mais chance de ser aceito. Alguém lhe disse, ainda em Rondonópolis, que aqui havia escolas preparadas para educar crianças que mal ou nada enxergavam.

A mulher que sempre limpou e cuidou de casas alheias catou o pouco que tinha e desembarcou em Brasília. Já que não poderia mais fazê-lo enxergar, pelo menos que tivesse dignidade com o que restava. “Só vim por ele”, conta. Foram morar numa colônia agrícola no Riacho Fundo, onde uma irmã dela já vivia.

Pedro Henrique logo foi matriculado numa escola pública local. “Mas os professores de lá não estão preparados para receber alunos com deficiência”, diz o garoto, hoje um adolescente de 15 anos. Os colegas, segundo a mãe, também não foram orientados para conviver com alguém que não era igual a eles. Pedro Henrique chorou pela segunda vez na vida. Na pré-adolescência, mergulhou na depressão. E na solidão.

Mais uma vez, a mãe correu para ajudar o filho. Soube que no Guará I havia uma escola inclusiva, o Centro de Ensino Fundamental 4. E que lá duas professoras da Sala de Recursos faziam um trabalho comovente sobre preconceito e discriminação. Lá nessa sala, 80 alunos com os mais diferentes tipos de necessidades convivem com outros, tidos como “normais”, isentos de “defeitos” — visíveis ou não. Todos se misturam e todos se ajudam.

Cristiane bateu à porta daquela escola. Foi atendida pela professora Idalene André, 46 anos. A mulher simplória contou o drama do seu filho. Idalene ouviu aquela mulher como poucos haviam escutado. E lhe disse que arrumaria, sim, uma vaga para o filho dela. No mesmo dia, Cristiane voltou à antiga escola. Pegou a transferência de Pedro Henrique e o matriculou no Guará I. Era 2007. Em 2008, o menino perdeu o pouco que ainda enxergava. Veio a escuridão total.

Pedro Henrique chegou aoCEF 4 do Guará 1 na 6ª série. Estimulado pelos professores do curso regular e da Sala de Recursos e ajudado pelos colegas que estavam prontos para recebê-lo, o garoto logo se desenvolveu. Participou de concursos de redação desenvolvido pela Secretaria de Educação. Levou o segundo lugar, escrevendo sobre meio ambiente.

"Queria ver o rosto da minha mãe de novo. Hoje eu enxergo usando os outros sentidos"
Pedro Henrique Cruz Araújo, estudante, 15 anos

Herói na piscina
E ainda na escola, encontrou o esporte pela frente. Apaixonou-se pela natação. E virou um recordista. Até agora, colecionou 17 medalhas. “Nove de ouro, quatro de prata e quatro de bronze. Já competi até em São Paulo”, ele conta, danado de orgulhoso. “Mudar de escola mudou a vida do meu filho. Nem acordar às 4h da manhã pra pegar o ônibus às 5h e chegar com ele aqui às 6h30 me desanima”, diz a mãe, em lágrimas.

Eliane Lopes, 41 anos, também professora da Sala de Recursos, comenta: “Ele é mais um exemplo de vida, inclusão e desafio”. E pergunta: “Afinal, quem é diferente?” Idalene emenda: “A diferença está na alma”. Pedro Henrique apenas ouve. “Hoje eu vejo de outras formas”, ele diz. A mãe ainda limpa as lágrimas que caem dos olhos.

Além das aulas regulares no CEF 4 do Guará, Pedro Henrique frequenta o Centro de Ensino Especial de Deficientes Visuais (CEEDV), na 612 Sul. Lá, ele aprendeu a escrever em braile e tem noções de orientação e mobilidade, algo de que mais precisam os cegos. É o que lhe permite, por exemplo, andar com sua bengala e tornar-se, cada dia, mais independente no mundo não feito para pessoas “imperfeitas”.

Durante a entrevista na Sala de Recursos, Sônia Guedes, 56 anos, professora de matemática de Pedro Henrique, entra. Afastada da escola por causa de um câncer de mama — ela faz as últimas sessões de radioterapia — e usando um lenço que lhe cobre a cabeça sem cabelos, a mulher que luta pela vida olha para o aluno e diz: “Ele é um exemplo de superação. Nunca se deixou vencer. Caía e levantava”. O garoto abraça a professora dos números. Ela promete: “Eu venho para a sua formatura, no fim do ano”. Ele diz que sim.

Na semana em que as escolas da rede pública chamam para a importância da inclusão, dos direitos e da valorização do aluno que não é igual à maioria, a história de Pedro Henrique soa como um bálsamo. A mãe largou tudo em Rondonópolis para que o filho fosse aceito como deveria ser. Acorda às 4h manhã. Anda meia hora para chegar ao ponto de ônibus. Às 5h, embarca. Deixa o filho na escola e vai limpar escritórios alheios. Isso de segunda a sexta. E nunca se cansa.

No meio do caminho, Pedro Henrique encontrou duas professoras que acreditaram que ele podia. O garoto venceu concurso de redação, tornou-se medalhista de natação. Quer ir cada dia mais longe, mesmo de bengalas. Pergunto do que ele tem saudade quando enxergava. “De ver o rosto da minha mãe”, responde. Mas logo se anima: “Hoje eu enxergo usando os outros sentidos”. E foi assim, descobrindo outros rumos, que ele se reinventou. E quem se reinventa acaba renascendo. Pedro Henrique nasceu quando veio a escuridão.

Marcelo Abreu
Correiobraziliense.com.br