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quarta-feira, 21 de julho de 2010

A bela história de Wanderley


Era uma tarde comum, 21 anos atrás, durante o dia de trabalho em um salão da Asa Norte, quando o cabeleireiro carioca Wanderley Estrella, 47, sentiu as dores que eram o anúncio de uma mudança radical em sua vida. A cada minuto, as pontadas na barriga ficavam mais fortes, o suor escorreu frio e o enjoo veio logo em seguida. Uma semana depois, a fisionomia de Wanderley havia se transformado. O homem alto, atraente e saudável parecia ter desaparecido. Tinha perdido 20kg.

O tormento não acabava. Um colega de trabalho aconselhou-o a fazer o teste de HIV. “Aqueles sintomas não eram normais. Fui ao laboratório com a certeza de que daria positivo”, lembrou Wanderley. A intuição estava correta. Ao receber o resultado, ele sentiu como se o chão tivesse desaparecido debaixo de seus pés. A vida se mostrou poderosa, inesperada, dona de si. Um momento que aconteceu em algum dia dos 10 anos anteriores à descoberta do “positivo” deixou marcas eternas em Wanderley. “Eu fui contaminado entre os anos 1978 e 1980. Eu era jovem, na noite do Rio de Janeiro. Naquela época, o sexo era livre. Nem se falava em camisinha. Foi na mesma época do Cazuza”, lembrou.

À época do diagnóstico, Wanderley já estava em Brasília, lugar para onde se mudou em 1984. Veio para passar três dias e acabou fixando residência. Apaixonou-se pela cidade-parque. Tudo era glamour antes do tal “positivo.” Acostumado a cuidar das cabeças mais exigentes de Brasília e a frequentar locais de classe A, ele se viu diante de um monstro: o preconceito. Achou que ia perder o emprego, que a vida acabaria ali. “Naquele tempo, quando você recebia um resultado positivo, era o mesmo que comprar um caixão”, disse. Mas o chefe foi sensato, apoiou o funcionário dedicado. “Ele me disse: ‘Agora você só tem uma opção, e é continuar a vida, tomar o coquetel e trabalhar’”.

Abandono
Os amigos, porém, desapareceram. Não queriam apertar a mão de Wanderley, beijá-lo, dividir um copo. Compartilhar o mesmo talher ou banheiro? Nem pensar. A ignorância sobre as formas de contágio do vírus afastaram até as pessoas mais próximas. “Parecia que um buraco enorme tinha sido aberto ao meu redor. A rejeição não precisa ser expressa em palavras, a gente sente no olhar das pessoas.” O cabeleireiro, acostumado a ser querido, não resistiu a tanta hostilidade. Entregou-se ao alcoolismo. Vendeu carro e casa conquistados com muito esforço para mergulhar na bebida. “Era minha única fuga.”

Wanderley aprendeu, ainda menino, a se virar e a superar desaforos. Saiu de casa pré-adolescente. Não se sentia aceito, não pertencia à própria família. Enfrentou o primeiro preconceito, aquele contra homossexuais. “A minha orientação sexual era considerada uma doença entre os meus familiares. Saí sozinho no mundo e fui trabalhar em um salão de elite do Rio de Janeiro. Rapidinho eu estava aparecendo nos jornais cariocas e começou a aparecer parente querendo me ver. Mas era tarde.” Com as dificuldades, Wanderley aprendeu a renascer.

Força
Depois da crise, não demorou muito e ele se reergueu, parou de beber. “Encontrei força em Deus. Ele me fazia pensar: se eu posso viver uma vida normal, porque vou desistir? Tenho todo direito de ser feliz”, lembrou. Quando decidiu voltar a trabalhar, em 2002, Wanderley encontrou espaço no Salão Hélio Diffusion, um dos mais badalados de Brasília. Não escondeu de ninguém que era portador de HIV. Decidiu que o preconceito não iria vencê-lo ou abafar sua autoestima.

Para compor um novo Wanderley, ele adotou um visual peculiar. Está sempre de cavanhaque e lenço na cabeça. O acessório é multifuncional, esconde a calvície e dá um charme ao mesmo tempo. “Escolhi levar a vida de cabeça erguida.” A relação com as clientes nunca foi prejudicada pela doença. Ele atende mais de 45 homens e mulheres por dia em busca do corte ou tintura perfeita para os cabelos. “As clientes me perguntam se eu já tomei o coquetel, se está na hora do remédio”, conta. Com os avanços da medicina, Wanderley, que antes tomava 23 remédios por dia e sofria com os efeitos colaterais, começou a ingerir nove comprimidos diariamente. Há dois anos, seus exames resultam em carga viral indetectível. “Eu chamo o momento de tomar o remédio de dar ração aos meus bichinhos. Depois é hora da ração da bichona aqui. Bom humor é essencial”, disse, em meio a gargalhadas. Mas isso não bastava. O cabeleireiro queria alertar a todos sobre os riscos do sexo sem segurança. Quem ele atende no salão e recebe até preservativos de presente. “Tem algumas pessoas que falam: ‘Eu não preciso disso’. E eu digo: ‘OK. Então você vai se dar mal como eu me dei’. E elas mudam de ideia”, disse.

Luta
Em 2007, Wanderley precisou ser internado. “Fiquei cinco meses na Fraternidade Assistencial Lucas Evangelista (Fale). A maior universidade da minha vida foi ouvir as outras pessoas que estavam internadas lá, conheci várias realidades. Levantei de lá disposto a pedir meu emprego de volta”, relatou. O patrão recebeu Wanderley de braços abertos e ainda ofereceu a ele um cantinho para morar. “Eu só tinha uma sacola de roupa, quando voltei.” Naquele momento, Wanderley sentiu que podia contar com a vida outra vez. Ficou agradecido. Todo mês, ele e outros colegas de trabalho vão à Fale para oferecer cuidados de beleza aos pacientes. No próximo domingo, o ex-paciente estará lá.

O ativismo de Wanderley é contagiante. O dono do salão onde ele atua já fazia trabalhos sociais antes de conhecê-lo, mas depois de ver de perto a rotina de um portador de HIV se engajou ainda mais na luta contra a doença e apoia projetos ligados ao tema. Além da distribuição de camisinhas no salão, há até cartões-postais com o tema anti-HIV. Os profissionais do Hélio também participam de iniciativas da organização Cabeleireiros contra Aids, um projeto da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Cultura e a Ciência (Unesco).

Hoje, três anos depois, Wanderley conseguiu se reinventar. “Um portador de HIV só precisa de quatro coisas para viver bem: tomar a medicação sempre na hora certa, se alimentar bem, sexo seguro e não usar nunca palavras negativas”, afirmou. Wanderley, em breve, vai realizar um dos seus sonhos: está acabando de construir uma “mansão”, como ele mesmo diz. Cheia de pássaros e verde. “A gente é como uma nascente de água pura. Tem um curso a seguir. Quando surge algum obstáculo, como as rochas, por exemplo, a nascente faz uma cachoeira. O ser humano também pode ser assim e se superar sempre”, ensina. Wanderley não se cansa de comemorar o fato de estar no mundo. “Quando eu completar 50 anos, quero fazer uma megafesta na minha casa nova. Vai ser à moda carioca, com muita feijoada. Uma celebração da vida”, concluiu.

Leilane Menezes
Correiobraziliense.com.br

segunda-feira, 21 de junho de 2010

HQ sobre Aids, gravidez e homossexualidade será distribuído em escolas públicas

Uso de camisinha, preconceito contra homossexuais, uso de álcool e drogas e prevenção da gravidez são temas de uma série de HQs ilustradas por desenhistas da Marvel que serão distribuídas em escolas públicas que fazem parte do programa Saúde e Prevenção nas Escolas (SPE).

O lançamento ocorreu na terça-feira (15/06), com a presença do ministro da Saúde José Gomes Temporão e o representante da Unesco no Brasil, Vincent Defourny.

Desenhistas renomados como o brasileiro Eddy Barrows, atual desenhista do Superman (DC Comics), ilustraram as revistinhas. Eddy já emprestou os traços para Lanterna Verde e Spawn. Ilustrações de Júlia Bax, Edh Muller e Yure Garfunkel também podem ser vistas nas HQs.

Um guia para utilização em sala de aula pelo professor e um CD-ROM complementar – com jogos, perfil dos ilustradores, wallpapers e idéias de aplicação do material em sala de aula – vão auxiliar nos debates.

Veja trechos e imagens das revistas aqui.

Criado em 2003, o SPE é uma iniciativa dos ministérios da Saúde e da Educação, com a parceria da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), do Fundo de População das Nações Unidas (Unfpa) e do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef).

O programa tem como objetivo desenvolver estratégias para redução das vulnerabilidades de adolescentes e jovens por meio de atividades de prevenção das doenças sexualmente transmissíveis (DST) e da infecção pelo HIV. O programa envolve a participação de adolescentes e jovens (de 13 a 24 anos), professores, diretores de escolas, pais de alunos e gestores municipais e estaduais de saúde e educação.

Atualmente, o SPE tem grupos de trabalho integrados entre saúde e educação em aproximadamente 600 municípios.

Redação UOL Ciências e Saúde

sexta-feira, 7 de maio de 2010

Falha no organismo protege contra HIV

Mais uma vez, é legal ver os avanços da medicina nos diversos tratamentos.Mais legal ainda é que foram utilizadas células do próprio corpo para esse estudo.

Uma mutação genética que pode causar doenças autoimunes como o diabetes tipo 1 confere a seus portadores inusitada vantagem: seus organismos passam a combater o HIV.

Cientistas acabam de revelar o mecanismo por trás desse fenômeno, abrindo um nova frente na tentativa de criar uma vacina contra a Aids.

A descoberta, descrita em estudo na revista "Nature", é fruto de um trabalho conduzido por cientistas da Universidade Harvard e do MIT (Instituto de Tecnologia de Massachusetts).
O grupo descreve como usou uma ampla estratégia, que incluiu simulação do sistema imunológico por computador e testes genéticos em pacientes, para obter seus resultados.

A mutação estudada pelos cientistas é identificada pela sigla HLA B57. Ela faz com que os linfócitos, células de defesa do sangue, atuem de forma mais abrangente. Eles são capazes de capturar vírus que sofreram mudanças e poderiam passar despercebidos pelo sistema imune.

A vantagem da mutação por si só já era conhecida. Mas, sem saber seu mecanismo de ação, os cientistas não tinham como tentar fazer uma vacina que imitasse essa estratégia. No novo estudo, porém, pesquisadores mostram como a HLA B57 induz a produção de linfócitos que reconhecem e atacam até mesmo o HIV "disfarçado".

O truque para o linfócito com a mutação reconhecer o HIV é que, em vez de fazer a busca usando um conjunto grande de características do vírus, ele o identifica usando só um pequeno pedaço das proteínas que o recobrem -um peptídeo.

Ao simplificar o processo, o sistema imune corre o risco de atacar células do próprio organismo, causando doenças. Mas, em compensação, ele não deixa de atacar o HIV porque o vírus mudou só um pedaço de sua enorme casca de proteínas.

Normalmente, linfócitos que agem como policiais "paranoicos" -enxergando o rosto do suspeito em toda molécula que encontra- são destruídos pelo organismo. Nos pacientes com a HLA B57, porém, eles são livres para agir, porque não saem à caça dos vírus carregando uma lista grande de características, evitando um pouco o excesso de ataques a "inocentes".

Prova de fogo

Para saber se a teoria estava correta, cientistas fizeram testes de DNA em pacientes portadores de genes com características similares ao HLA B57.

Neste grupo, aqueles que haviam contraído o HIV de fato dificilmente desenvolviam a doença. Quase 2.000 pessoas foram avaliadas no trabalho.

Segundo Bruce Walker, um dos líderes do estudo, a descoberta levou tempo porque necessitou que um grande conhecimento sobre a estratégia de ação do vírus se acumulasse.

"O HIV está se revelando aos poucos", disse, em comunicado à imprensa. "Isso é mais um ponto a favor da luta contra o vírus, mas ainda temos um longo caminho pela frente."

O trabalho dos cientistas recebeu um elogio público de David Baltimore, Prêmio Nobel de Medicina de 1975, que hoje estuda HIV e imunologia.

"Esse é um estudo notável porque parte de uma observação clínica, integra-a a observações experimentais, gera um modelo [hipótese] validável e deriva deste um profundo entendimento sobre o o comportamento do sistema imune humano", escreveu o cientista.

Folha.com.br
da Redação
06/05/2010 - 10h38